David Robert Mitchell é um dos realizadores mais proeminentes dos últimos dez anos. Em 2015, ele causou impacto com o filme “Corrente do Mal”, um terror anacrônico de primeira, e, em 2018, fez “O Mistério de Silver Lake”, um mistério conspiratório muito competente. Toda a carreira de Mitchell até então foi marcada por filmes de baixo orçamento de terror e suspense. Mas, em 2026, ele lança, sob a produção de J.J. Abrams, “O Fim da Rua“, um filme de ficção científica com dinossauros que mistura elementos de horror, ficção científica e aventura.
Uma família Spielbergiana em tempos pré-históricos
A trama do filme, que se passa em um bairro de classe média nos EUA dos anos 80, acompanha os Platt, uma típica família que veríamos em um filme de Steven Spielberg: um pai, uma mãe e um casal de filhos, em que cada um passa por seu próprio dilema pessoal. Certo dia, todo o bairro em que eles moram é transportado para o passado, na época dos dinossauros.
“O Fim da Rua” usa a aventura macro para evidenciar e resolver os dramas dos personagens: o divórcio iminente do casal, o problema comportamental dos filhos e alguns dilemas pessoais que servem para gerar identificação no espectador. Mesmo sendo uma história simples, ela funciona pelo carisma dos personagens e pelas boas atuações do casal vivido por Anne Hathaway, que interpreta a dona de casa forte e decidida Denise, e Ewan McGregor, que vive Greg, um pai responsável e carinhoso. Quando o longa foca suas lentes nestes dois personagens, ele melhora exponencialmente. Os personagens dos filhos, interpretados por Maisy Stella e Christian Convery, até funcionam, mas falta um arco mais bem desenvolvido, pois muitas vezes suas tramas soam superficiais e batidas.
O tom do filme é fortemente inspirado em obras como “Contato” e “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”. Um horror iminente toma conta da rotina de uma “família margarina”, e é a união e a resolução de suas questões que vão salvá-los ou condená-los. Em termos estéticos, o filme, até certo ponto, se assemelha a “Super 8”, do próprio J.J. Abrams, e a “Stranger Things”.

Da inventividade de Mitchell e Gioulakis ao CGI irregular e roteiro disperso em “O Fim da Rua”
Mas, se por um lado a história do filme pode se assemelhar a diversas outras obras do mesmo tipo, a direção de David Robert Mitchell imprime um frescor primoroso. É um trabalho muito inspirado. Diversas vezes, a direção decupa o projeto de forma não convencional. Ele substitui planos estáticos por planos dinâmicos e uma blocagem de cena diversificada em sua encenação, e planos que, por um diretor medíocre, seriam apenas um plano e contraplano sem graça, pelas lentes de Mitchell se tornam split diopters extremamente estilosos. É um tipo de inventividade estética e narrativa difícil de se encontrar em blockbusters. Dá para ver que diretor e seu diretor de fotografia, Michael Gioulakis (que trabalham juntos desde “Corrente do Mal”) têm uma sinergia única.
No entanto, se por um lado “O Fim da Rua” vai bem nas cenas mais intimistas e humanas, em algumas cenas com grande uso de computação gráfica, ele escorrega. É notável a habilidade com a câmera e os recursos técnicos ao filmar planos fechados e ângulos de câmera malucos envolvendo humanos, mas, em boa parte do filme, a direção parece não saber o que fazer nas cenas com dinossauros. Algumas cenas são estáticas a ponto de parecerem uma esquete do YouTube, e outras têm uma computação gráfica que parece mal-acabada. Por sorte, em outras cenas isso é resolvido, e algumas sequências envolvendo as criaturas pré-históricas são bem empolgantes.
Em termos de trama, também é possível notar uma certa falta de habilidade do diretor e roteirista na hora de desenvolver um filme com tantos conceitos e personagens numa escala grande. Mitchell veio dos filmes indie e, quando tenta expandir demais a escala dos acontecimentos e os personagens, acaba se perdendo. No meio do filme, há uma personagem que é irritantemente inútil e que, em uma revisão de roteiro mais atenciosa, seria facilmente substituída. Além disso, há pontos da trama que parecem aparecer apenas para justificar questões em aberto.

Crítica de “O Fim da Rua”: vale a pena pela coragem e personalidade
Ao final, “O Fim da Rua” vale a pena por sua direção corajosa, bons atores e um ótimo timing de comédia. Apesar dos tropeços, é uma aventura com dinossauros original, divertida e com personalidade suficiente para não desaparecer no meio de tantos blockbusters iguais. O filme já está em exibição nos cinemas.
Por Tiago Maia.
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