Ainda que mais de três mil anos separem Christopher Nolan de Homero, uma coisa eles têm em comum: ambos, em A Odisseia, cantam as armas e os homens. Diferentemente do que se pensa, por mais que a poesia épica tenha a guerra como um dos seus principais temas, a intenção dos poetas nunca foi incentivar ou aplaudir a sua prática — muito pelo contrário, era mostrar que, em um evento desses, não há vencedores, e sim devastação por todos os lados. Nolan, em “Batman Begins” (2005), mostra o homem multiversátil em suas muitas errâncias, enquanto em “Dunkirk” (2017) canta o sofrimento de soldados lançados ao inferno da guerra.
Dessa vez não foi diferente: fomos presenteados com uma hipnotizante aventura de um herói que, perdido no mar sem fim, arde pela esposa e por seu retorno ao lar. Inclusive, depois de assistir ao filme, fiquei me perguntando por que o diretor não fez essa adaptação antes, pois ele sabe como recriar épicos. Só que, ironicamente, devo dizer que este foi seu projeto mais minimalista. Mas uma coisa de cada vez.

Elenco de luxo e referências clássicas: Matt Damon é Odisseu
“A Odisseia” é a adaptação da obra mais famosa do poeta grego Homero. O longa conta a história de Odisseu (aqui vivido por Matt Damon), rei de Ítaca e um dos principais heróis da Guerra de Troia, que durante vinte anos tenta, em vão, voltar para casa, enquanto sua esposa Penélope (Anne Hathaway) e Telêmaco (Tom Holland) esperam ansiosamente pelo seu retorno. O interessante é que tivemos referências a outras obras da literatura greco-latina, como a Ilíada, do mesmo autor, e a Eneida, de Virgílio.
Acredito que muitas pessoas estejam se questionando sobre a “fidelidade” do filme em relação à obra de partida. A resposta é sim e não. Ainda que o roteiro tenha intercalado de forma eficiente os momentos da narrativa, não seguindo à risca a cronologia do poema, a estrutura é mantida, iniciando com a Telemaquia, ou seja, com Telêmaco buscando seu pai ausente, enquanto sua mãe é rodeada (praticamente sufocada) por pretendentes que pretendem assumir o trono vazio de um reino ameaçado por uma iminente invasão dos temidos “Povos do Mar” (não há uma explicação muito clara de quem são). O pretendente que se destaca é o arrogante Antínoo (Robert Pattinson), que, através de violência e artimanhas, busca o casamento real.
Falando em artimanhas, vamos para Odisseu. Enquanto Ítaca vive em crise, Matt Damon, já de barba branca, surge em Ogígia, a ilha de Calipso — sozinho, calado, pensando sabe Deus em quê. Calipso (Charlize Theron), já angustiada com o estado de espírito de Odisseu, que a todo momento revirava os restos de sua nau, resolve ajudá-lo a lembrar de seu passado, quase como em uma sessão de terapia. A partir daqui, embarcamos com o herói na sua longa jornada de aventuras, desde a queda de Tróia até o encontro com Cila e Caribdis.

Trilha sonora de Göransson e atuações: Anne Hathaway rouba a cena
Como pontos positivos, temos a trilha sonora de Ludwig Göransson (Oppenheimer, Os Pecadores e Pantera Negra), que mais uma vez acerta em cheio: o ápice foi o canto das sereias, uma cena arrebatadora. Recomendo demais que assistam no cinema IMAX, se houver condições, é claro. A mixagem de som e a qualidade de imagem ajudam na imersão (sentia que ia me afogar no Mediterrâneo a qualquer momento). A pancadaria foi tamanha que, por vezes, tapei meus ouvidos, o que é maravilhoso.
Indo para as atuações, Anne Hathaway estava simplesmente impecável (eu quero saber qual é o bioestimulador de colágeno que ela usa). Ela conseguiu passear entre a angústia do aguardo e a esperança do possível retorno de seu marido. Contudo, deixo aqui meu protesto: a rainha de Ítaca nunca foi uma personagem passiva. Assim como Odisseu, era astuciosa e resistia à sua maneira. Nesse aspecto, Nolan repete uma limitação recorrente: suas personagens femininas acabam ocupando um espaço menor do que poderiam. Já Tom Holland passou todo o filme com aquela cara de filho que está esperando o pai que foi comprar cigarro e nunca mais voltou. Torci por Telêmaco do começo ao fim; no terceiro ato, você sente uma alegria genuína por ele. Robert Pattinson faz o ótimo vilão Antínoo. Não foi o melhor papel de sua carreira — ainda gosto mais dele em “O Farol” e “Mickey 17″ (aí já é opinião impopular) —, mas você ainda quer dar uma surra nele, principalmente quando ameaça bater no Argos, o cachorro de Odisseu. E o terceiro ato é um deleite: nunca vi uma expressão de desgosto tão boa desde “Eclipse”(2010), quando Edward presenciou Jacob e Bela dormindo abraçados na cabana.
Menção honrosa à Lupita Nyong’o, que interpretou Helena de Troia e Clitemnestra, duas irmãs. Ainda que ela tenha conseguido transmitir toda a perturbação de ter sido o “pivô” de uma carnificina — que foi a Guerra de Troia —, teve poucos momentos, sendo mal aproveitada, tendo em vista todo o alvoroço que teve na internet antes da estreia.

O que decepciona em “A Odisseia”: didatismo e falta de impacto emocional
Como nem tudo são flores, vamos aos pontos negativos, que são poucos. O primeiro ponto é a forma exaustiva como o roteiro “desenha” alguns conceitos. Na Grécia antiga, havia um conjunto de regras éticas e morais que regiam os comportamentos das pessoas (a xênia, no grego ξενία). Entre essas regras, ofender um anfitrião ou maltratar um hóspede eram faltas gravíssimas, causando a ira divina. E tais princípios, que receberam o nome de “Lei de Zeus”, sempre nos eram relembrados.
Outro ponto fica para a falta de impacto, sobretudo emocional, em algumas cenas. O filme flerta bastante com o melodrama (como em um diálogo entre Odisseu e Calipso que, junto com a intensa trilha sonora, parecia uma cena de revelação do programa do João Kleber — e isso não é uma crítica), mas, ao assumir essa roupagem, se esconde, fica tímido. Até porque, ainda que haja uma aposta na megalomania do seu espetáculo visual (o ciclope Polifemo foi um grande acerto), seu foco é no Odisseu, no homem por trás do grande herói da Guerra de Troia.
Deixo por último a cereja do bolo: a construção do Odisseu feita por Nolan e Matt Damon, que fez um excelente trabalho. Em grego, ἥρως (heros) é um homem de caráter elevado, aquele que deveríamos ser; entretanto, essa noção se modificou, e o herói passou a ser definido como o espelho de quem nós somos, com vícios e virtudes. Ou seja, a pessoa que está assistindo deve se identificar para que consiga torcer para o mocinho.
O Odisseu de 2026 não é apenas o líder de uma frota. É alguém que quer voltar para casa, para o seio da família; alguém que erra, sofre e sente saudades. Quem leu a “Odisseia” sabe o quão trapaceiro e até arrogante (principalmente quanto à sua astúcia) era o protagonista, e isso foi, em partes, retirado para que ele fosse mais palatável ao espectador. Inúmeras adaptações foram feitas para que o filme fosse bem aceito pelo grande público, e isso deve irritar alguns especialistas em Homero (se bem que nem o próprio Homero era especialista nele mesmo).

Crítica: “A Odisseia” é o filme mais ambicioso de Nolan?
“A Odisseia” é, sem dúvidas, o filme mais ambicioso e desafiador da carreira de Nolan. Além do canto das sereias e do ciclope em tamanho real, este é um filme que fala de retorno. O retorno de Odisseu não é apenas geográfico; é também moral e psicológico. Depois de vinte anos de guerra e errância, voltar para casa significa descobrir se ainda existe um lar para o homem que ele se tornou. Mas isso não é a vida? Entre erros e errâncias da nossa jornada, a pergunta não é quando ou como vamos retornar; é se estamos prontos para tal.
Conselho: o “A Odisseia” tem quase três horas de duração. Vão ao banheiro e levem lanche.
Por Isa Ramalho.
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