Certos títulos de suspense possuem uma força especial quando pensamos na obra à qual pertence. Seven – Os Sete Crimes Capitais e Zodíaco, para nos atermos a dois dirigidos por David Fincher, por exemplo, nos indica muito bem o que esperar do serial killer em questão. O Assassino do Calendário (Sebastian Fitzeks Der Heimweg), por sua vez, pode nos passar impressão semelhante, algo como uma espécie de versão alemã para estes grandes clássicos, porém, quando nos deparamos com o conteúdo em si e prestamos a atenção ao título original, fica claro o equívoco pois, independente da qualidade, o longa trata de outra coisa.
A trama de O Assassino do Calendário acompanha Klara (Luise Heyer), uma mulher ciente de que sua morte ocorrerá no dia seis de dezembro caso ela mesma não mate o marido. Quem a sentenciou foi um assassino que tem assombrado as famílias da cidade, usando o mesmo método em todos os crimes. Quando Jules (Sabin Tambrea) inicia seu turno na linha de apoio de segurança para mulheres solitárias a caminho de casa, a ligação de Klara chega até ele.
O desenvolvimento da narrativa se apoia demasiadamente em construir uma relação entre Jules e Klara, o que funciona bem por muitos momentos mas não é o suficiente para prender o espectador ao filme. O clima de desconfiança é bem estabelecido quando não sabemos o porquê de Jules, ainda no seu turno de trabalho, está desconfiado de algum invasor no que entendemos ser a sua própria residência. Já a aposta em Klara, por sua vez, vai nos deixando cada vez mais longe do que seria a aparição de qualquer perigo relacionado com o assassino do calendário que dá título ao filme.
O Assassino do Calendário é um suco de limão que parece laranja, mas tem gosto de tamarindo
Até porque, o grande temor de Klara dorme ao lado dela todas as noites, sendo assim o marido a maior desgraça em sua vida, na qual ela suporta todos os tipos de humilhação como xingamentos, espancamentos e abuso sexual. É nesse ponto que mora o erro de tradução em relação ao título original: O Assassino do Calendário está sim presente no filme, mas ele não se sobrepõe ao peso do título original (algo como “o caminho para casa”, traduzindo “Der Heimweg”). Em outras palavras: o filme, que conta com a a direção de Adolfo J. Kolmerer e adapta a obra do escritor alemão Sebastian Fitzeks trata, essencialmente, sobre violência doméstica. , o que me fez recordar levemente de Jack Torrance, de O Iluminado.
Não que Kolmerer seja um Stanley Kubrick ou Fitzeks seja um Stephen King, claro. A abordagem do tema carece de algum refinamento, e a revelação do assassino no clímax não coloca em evidência o que deveria, chegando, inclusive, a flertar com o discurso de culpabilização da vítima em alguns momentos.
Do elenco, a dupla protagonista se destaca positivamente, principalmente Sabin Tambrea como Jules, muito beneficiado também pelo roteiro. Já Luise Heyer acaba relegada a tradicional mulher em profundo sofrimento, mas é na dinâmica com Jules que a personagem realmente se destaca e entrega o melhor possível. Outros nomes no casting como Friedrich Mücke, que vive o abusivo marido de Klara, Martin, acabam apenas cumprindo papéis protocolares em O Assassino do Calendário
Com um forte discurso sobre violência doméstica, especialmente sobre as mulheres que sofrem diversos abusos e vivem sendo silenciadas por seus parceiros (e acabam aceitando essa condição por diversos motivos como dependência financeira, medo pela própria vida ou pela vidas dos filhos), esse é um filme que pode te frustrar em alguns pontos, mas há alguns mistérios que irão entreter o espectador mais afoito por montar quebra-cabeças.
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