A Reserva, minissérie dinamarquesa que chegou na Netflix há algumas semanas, é mais uma dessas produções que tentam entender o modo como os europeus estão criando seus filhos, especialmente os meninos. O bullying virtual, que dá guarida para crimes como assédio moral e sexual, acaba escapando do radar tanto de pais atentos quanto desatentos, e após o enorme sucesso de Adolescência no mundo todo, este é certamente um tema que vai chamar atenção global.
Quando Ruby (Donna Levkovski), uma jovem “au pair” (um tipo de babá) filipina, desaparece em um dos bairros mais abastados da Dinamarca, ao norte de Copenhague, a moradora local Cecilie (Marie Bach Hansen) passa a acreditar que algo sério ocorreu. Angel (Excel Busano), a “au pair” contratada por Cecilie, decide apurar os rumores que começam a circular, enquanto cresce a desconfiança de que um crime tenha sido cometido. Ainda assim, o desaparecimento de uma estrangeira não é tratado como prioridade pelas autoridades, e a investigadora recém-designada Aicha precisa de toda a colaboração possível.
Cecilie e Angel se mostram dispostas a colaborar, e aos poucos as camadas de poder e vantagem social escondidas nas luxuosas residências começam a vir à tona. Porém, o empenho de Cecilie em esclarecer o que houve com Ruby é desafiado quando o caso revela vínculos diretos com sua própria família. Ela se vê obrigada a encarar suas limitações e a reconsiderar tanto seu círculo familiar quanto o ambiente no qual está educando seus filhos.

Cultura au pair e a terceirização do cuidado
A Reserva tem como criadora e principal roteirista Ingeborg Topsøe (Hanna), tendo Per Fly (Borgen) como diretor dos seis episódios. Perfeita para o formato de maratona, a minissérie se sai bem em diversos aspectos como retenção da atenção do espectador com sua tensão crescente, temas levantados para crítica social (como a condição de trabalho de cada “au pair” no país, além da problemática adolescente) e atuação do elenco, ainda que alguns papéis caiam em estereótipos um tanto gastos.
No que tange a cultura au pair, um termo francês cunhado para definir as babás que são inseridas nas famílias através de um programa de intercâmbio, a criadora se inspirou em experiências próprias para definir o que acaba sendo retratado na série, ainda que a história não se baseie em eventos reais. Essas cuidadoras, mesmo que respaldadas por um contrato, acabam ficando em situação de vulnerabilidade pois estão longe do seu país e estão ao sabor da índole das pessoas que as abrigam.
Essa linha da narrativa de A Reserva se conecta com a do cuidado, ou melhor, a terceirização de tarefas que deveriam ser dos pais mas acabam delegadas a essas cuidadoras. Apesar da família de Cecilie remeter bastante ao filme brasileiro (tem na Netflix) Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaerte, devido ao vínculo maternal criado entre a au pair Angel e Viggo, filho mais velho de Cecilie, Angel teve a sorte de ser direcionada a uma casa menos nociva em relação a que Ruby foi parar.
A casa de Katarina e Rasmus, na qual Ruby trabalhou como cuidadora do filho Oscar, acaba sendo o ponto central de discussão de ambos os temas. A au pair acaba tendo que lidar com assédios e outros problemas de um modo que sua própria vida acaba na linha de fogo, e descobrir o que aconteceu com ela (e como) se torna um dos principais objetivos da narrativa.
Mas no fim, o que mais acaba se destacando são dois pontos: a negligência com o cuidado à educação dos filhos, incluindo nessa discussão os limites da tecnologia e como a falta de atenção/carinho afetou e afeta sua formação (lembrando bastante a série Adolescência); e a diferença de classes onde os mais ricos e poderosos acabam se safando de responder sobre suas responsabilidades e se protegendo quando uma vírgula de sua fortuna ou reputação é ameaçada.
Vale à pena assistir A Reserva?
Apesar se entreter bem e levantar as boas temáticas que citamos nesta crítica, pode ser que A Reserva te decepciona em relação ao desfecho da narrativa e suas histórias secundárias. O destino de Ruby e a devida responsabilização de alguns personagens (após o previsível roteiro mostrar quem são os culpados) por crimes cometidos geralmente são elementos esperados em um enredo assim, mas a criadora opta por outro caminho de um modo que não parece ter sido o mais adequado. A Reserva é bom, mas fica devendo.
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