O cinema brasileiro, impulsionado pelas políticas de incentivo e por um cenário cada vez mais favorável à produção e à circulação de seus filmes, vem conquistando uma visibilidade internacional expressiva. Nos últimos anos, produções como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto ganharam destaque no cenário mundial, reafirmando a força do nosso cinema. Agora, um dos representantes dessa nova leva é Feito Pipa, do cearense Allan Deberton (Pacarrete, O Melhor Amigo), um drama sensível que encontra no afeto diferentes maneiras de falar sobre amadurecimento, identidade e relações familiares.
Na trama, Gugu (Yuri Gomes), uma criança negra e queer, vive no interior do Ceará, dividindo seu tempo entre o futebol e a dança. Quando sua avó e principal figura de proteção, Dona Dilma (Teca Pereira), é diagnosticada com Alzheimer, o garoto passa a enfrentar a possibilidade de ir morar com o pai (Lázaro Ramos), um homem que o ama, mas que ainda não compreende inteiramente seu jeito de ser. Diante da ameaça de perder o espaço que conhece como lar, Gugu encontra nos amigos uma rede de apoio e inicia uma jornada de amadurecimento, afeto e aceitação familiar.

De imediato, a atuação arrebatadora de Yuri Gomes chama a atenção. O jovem ator convence tanto nos momentos de humor quanto nos de maior carga dramática, demonstrando uma naturalidade impressionante diante da câmera. Sua interpretação não parece sentir o peso de contracenar com um elenco de apoio recheado de figuras consagradas do cinema brasileiro. Pelo contrário, Gugu é o centro gravitacional da narrativa, e Yuri consegue sustentar essa posição com carisma e sensibilidade. É especialmente interessante como sua atuação corporal complementa aquilo que o personagem não consegue ou não deseja expressar verbalmente.
Um dos grandes destaques do filme está justamente na carga emocional que seus personagens carregam. São figuras assombradas pelo passado e atravessadas por um futuro incerto, cujas relações são construídas a partir de ausências, ressentimentos e dificuldades de comunicação. Nesse sentido, o roteiro de André Araújo brilha ao expor os conflitos de maneira silenciosa e sucinta, sem recorrer constantemente a diálogos expositivos ou a grandes momentos de dramaticidade. O filme compreende que, muitas vezes, um olhar, um gesto ou uma reação contida dizem mais sobre um personagem do que qualquer discurso.
Outro elemento importante é o humor, utilizado como ferramenta para conferir carisma e novas camadas aos personagens. Longe de funcionar apenas como alívio cômico, ele surge organicamente das situações e das relações estabelecidas entre as figuras da narrativa. Essa escolha também ajuda a equilibrar uma história que carrega acontecimentos bastante pesados e trágicos em seu núcleo familiar. O resultado é um filme que consegue transitar entre o drama e a comédia sem perder completamente sua identidade.
Entretanto, justamente por carregar tantos temas, personagens e conflitos, Feito Pipa acaba esbarrando em algumas limitações de desenvolvimento. Determinados segmentos aparecem e desaparecem muito rapidamente, carecendo de maior silêncio e ponderação para que suas consequências emocionais sejam devidamente assimiladas. Existe uma quantidade considerável de questões sendo trabalhadas simultaneamente, e nem todas recebem o mesmo cuidado. Em especial, um dos conflitos entre dois personagens encontra uma resolução apressada, que enfraquece um pouco o impacto de uma situação que parecia exigir maior elaboração. Em alguns momentos, fica a sensação de que Feito Pipa tem mais histórias para contar do que seu tempo de duração permite desenvolver.

Na direção, Allan Deberton demonstra sensibilidade ao trabalhar com planos fechados que valorizam o olhar e as pequenas expressões de seu protagonista. Gugu é um personagem que comunica muito mesmo quando fala pouco, e a câmera parece compreender isso, aproximando-se dele para registrar suas reações e transformações emocionais. Ao mesmo tempo, a direção também explora sua expressividade corporal, especialmente nas sequências de dança e futebol. São nesses momentos que a encenação encontra algumas de suas soluções estéticas mais interessantes, com um trabalho de coreografia muito bem realizado. O corpo de Gugu deixa de ser apenas um instrumento de ação e passa a funcionar como uma extensão de sua identidade, um espaço de liberdade no qual ele consegue expressar aquilo que nem sempre encontra lugar nas relações familiares.
A direção de arte, assinada por Dayse Barreto (de “O Último Azul” e “Cabeça de Nêgo”), também merece destaque. O trabalho estabelece distinções visuais entre o universo particular de Gugu e aquilo que podemos compreender como o mundo dos adultos, construindo espaços que carregam características e significados próprios de cada personagem. Os ambientes não funcionam apenas como cenários, mas ajudam a revelar as relações afetivas e os diferentes modos de enxergar o mundo. Existe um cuidado em fazer com que esses espaços participem da construção narrativa, reforçando a perspectiva infantil sem necessariamente infantilizar a experiência do protagonista.

A direção de fotografia de Luciana Baseggio e Daniel Donato acerta especialmente na maneira como retrata a paisagem do sertão cearense. Distanciando-se de uma representação frequentemente associada à chamada “estética da fome”, Feito Pipa propõe outro olhar sobre esse território, revelando um espaço vivo, colorido e atravessado pelas experiências cotidianas de seus habitantes. O sertão não aparece somente como uma paisagem de escassez ou adversidade, mas como parte fundamental do universo afetivo de Gugu. As escolhas cromáticas e o uso da profundidade de campo também contribuem para acentuar os estados emocionais dos personagens, fazendo com que a composição visual participe ativamente da narrativa. É uma fotografia que não se limita a registrar os acontecimentos, mas encontra maneiras de contar parte da história por meio das imagens.
Equilibrar tantos núcleos dramáticos e subtramas é um desafio considerável, e Allan Deberton consegue amarrar boa parte desses fios narrativos com competência. Ainda que algumas resoluções pudessem encontrar mais espaço para respirar, o longa demonstra clareza sobre aquilo que deseja comunicar. Feito Pipa encontra sua maior força na construção de um personagem que, apesar das dificuldades impostas pelo mundo ao seu redor, descobre no afeto e nas relações que estabelece uma possibilidade de pertencimento. Mais do que uma história sobre aceitação, é um filme sobre a importância de permitir que o outro exista em sua própria singularidade. E, nesse sentido, Gugu é um personagem que permanece com o espectador mesmo depois que os créditos terminam.
Feito Pipa está nos cinemas de todo o Brasil.
Por Tiago Maia.
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