Na edição de 2025 do Enem, o tema “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira” abordou a questão etária de forma surpreendente para os jovens. Isso aconteceu devido a um fator bem comum na adolescência: considerar a velhice como um abismo imenso de distância do tempo presente. Na década de 1950, a famosa frase associada a James Dean afirma: “Live fast, die young” (viva rápido, morra jovem), repercutindo a ideia de que a velhice não tem importância e que há urgência em viver o presente. O desprezo em considerar uma faixa etária elevada não vem de hoje.
No filme “O Último Azul“, dirigido por Gabriel Mascaro, a personagem Tereza (Denise Weinberg) é uma idosa que vive em um mundo distópico onde as pessoas acima de oitenta anos são transferidas para abrigos de isolamento para que sua presença em sociedade não sobrecarregue os cuidados geriátricos nem atrapalhe a mão de obra jovem. Surpreendida com uma medida do governo que diminuiu a idade mínima para o asilo compulsório, Tereza decide fugir e realizar seu sonho de andar de avião, explorando localidades da região Norte do Brasil.
O slogan do governo nacional para receber os idosos no filme é “O Futuro é para Todos”. Em uma clara ironia, ele nos convida a elaborar uma questão complexa: o futuro é para todos? Ou melhor: o futuro é para quem? No nosso país, o número de idosos (65+) cresceu 57,4% entre 2010 e 2022 e, pela primeira vez, o número de idosos superou o número de jovens na faixa etária de 15 a 24 anos. A tendência é que esse número aumente com o decorrer dos anos. Como o país lidará com essa situação? Com o abandono, com isolamento, com cuidados paliativos?
Neste texto, há mais perguntas que respostas, mas o que pretendo destacar, como ficou evidente na narrativa de “O Último Azul”, é que existe um direito fundamental que a velhice precisa ter acesso: o direito de fruição da vida. Quando falamos da terceira idade, relacionamo-la a doenças, fraqueza e letargia. Mas a fruição da vida (como algo em que usufruir ativamente da liberdade de poder estar inserido nas atividades sociais é natural) tem que ser posta em prioridade. É o poder de fazer como uma idosa, como Tereza, que decidiu viajar e desbravar o desconhecido porque teve a consciência de que podia, ainda que contra a sociedade e a estrutura de poder vigente.

Existe um ditado francês atribuído a Henri Estienne que diz: “Se a juventude soubesse; se a velhice pudesse”. Em palavras miúdas, a velhice, apesar da sabedoria, não pode nada porque não tem o ímpeto juvenil. Essa é uma constatação simplista, que reduz a velhice à posição contemplativa. É preciso ver com outros olhos a população que em breve poderá ser a maior parte do Brasil. A maior lição de “O Último Azul” é que a longa estrada da idade é bem maior que atingir um ponto de retiro obrigatório de todos os prazeres da vida; ela é, na verdade, um convite para apreciar e reapreciar tudo de novo.
No momento, “O Último Azul” está disponível na Netflix.
Por Hélio Mesquita.
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