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Dias e Dias, média-metragem de 2Vilão - Crítica por Hélio Mesquita Dias e Dias, média-metragem de 2Vilão - Crítica por Hélio Mesquita

Dias e Dias: será possível viver de arte?

Dias e Dias” é um média-metragem que conta a história de Caíque (Bias), um jovem fotógrafo que trabalha de forma exaustiva em uma empresa. Insatisfeito com sua condição atual, ele tenta pedir demissão para se dedicar à sua arte, mas enfrenta uma recusa. Sua amiga Nara (Larissa Diaz), musicista que vive de um auxílio do instituto, divide com ele uma rotina de compromissos, entre o sufoco do cotidiano e o anseio de se realizar como artista.

O filme, dirigido por 2Vilão (Mary e Peri), apresenta uma fotografia sensacional, alinhada à proposta de ter um protagonista fotógrafo. Quadros bem compostos, iluminação e tratamento de cor são destaques da obra. A direção de arte também é envolvente e integrada à cenografia. É preciso parabenizar a produção pelo trabalho com as locações — incluindo ônibus urbanos —, o que, com certeza, não é fácil. Pensando no conjunto da obra, reunir essas qualidades em um média-metragem de 18 minutos é um trabalho desafiador.

Quando se fala em viver de arte no Brasil, evoca-se a figura da garota Milena, daquele antigo meme, que afirma que “vai viver das coisas que a natureza dá”. O vídeo viral, claro, é uma esquete de humor, mas ilustra um pouco do que as pessoas imaginam ser a vida de artista: de folguedo e preguiça ou de miséria e pobreza. A realidade é que, a menos que você seja um sucesso na indústria cultural, há poucas opções de sustento para o trabalhador da arte. A maioria sequer tem a arte como única fonte de renda. Quando esse é o caso, por exemplo, ao responder a quem pergunta sobre a profissão, dizer que é artista costuma vir acompanhado da pergunta: “mas você vive do quê?”.

Há mecanismos de fomento à arte no Brasil, que oferecem financiamento via editais públicos em esfera federal, estadual e municipal. Porém, as vagas são limitadas, os processos são atravancados pela burocracia e os valores, em grande parte, não atendem às necessidades dos artistas. Para destacar um exemplo atual, o Edital das Artes da cidade de Fortaleza, que está em curso, oferece para a linguagem audiovisual cerca de 27 mil reais para artistas experientes e 12 mil reais para iniciantes — valores que, com licença da hipérbole, não dariam para comprar nem a tampa de uma lente objetiva.

Dias e Dias, média-metragem de 2Vilão - Crítica por Hélio Mesquita
Créditos da imagem: Pedro Viana / Divulgação

Crítica de Dias e Dias: a vocação do artista

Mas a profissão de artista não deixa de ser digna como qualquer outra; é uma profissão antiga e parece ser destinada àqueles que receberam uma espécie de chamado, uma vocação que não pode ser ignorada. Ver os frutos de sua alma é uma satisfação que vai além dos bens materiais, é riqueza de espírito. Por isso, mesmo que em “Dias e Dias” isso tenha ficado apenas parcialmente claro, é preciso torcer para que Caíque e muitos outros como ele, fora da ficção, se realizem em seu trabalho, belo e necessário. Afinal, se não fossem os artistas e suas obras, a vida seria uma insensibilidade irracional.

Por Hélio Mesquita.