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A Fabulosa Máquina do Tempo: infância, imaginação e desigualdade no sertão do Piauí

Filme será lançado no dia 30 de julho nos cinemas

A Fabulosa Máquina do Tempo é um filme que mistura documentário, ficção e elementos lúdicos para abordar uma realidade que, em certa medida, é devastadora.

A sinopse é a seguinte: “Em uma pequena cidade do sertão do Piauí, um grupo de meninas vive entre o universo do TikTok, os cultos evangélicos e os sonhos sobre o futuro. Ao inventarem uma máquina do tempo, elas revisitam as histórias de suas mães e avós, marcadas pela pobreza e pela desigualdade, enquanto imaginam um amanhã em que possam ser livres e realizar seus próprios sonhos.”

Diante desse cenário, a direção busca capturar, nas brincadeiras das crianças, elementos da realidade que as cerca. Um dos maiores méritos do documentário é alternar momentos de forte carga dramática com dramatizações realizadas pelas próprias crianças, revelando sua forma singular de compreender o mundo. O filme deixa claro que, por mais inocentes que sejam, as crianças são observadoras atentas e, muitas vezes, demonstram maior consciência dos acontecimentos ao seu redor do que os próprios adultos. Nesse sentido, “A Fabulosa Máquina do Tempo” constrói um retrato bastante verossímil do comportamento infantil.

A Fabulosa Máquina do Tempo

É comum que produções audiovisuais retratem crianças como personagens excessivamente ingênuos, incapazes de perceber a realidade que as envolve, o que frequentemente resulta em comportamentos pouco convincentes. Aqui, entretanto, a direção de Eliza Capai (que coassina o roteiro ao lado de Daniel Grinspum) consegue equilibrar inocência, curiosidade e perspicácia de maneira muito natural, sobretudo pela forma como o documentário se desenvolve e permite que os pequenos se expressem livremente.

A edição, o design de som e a pós-produção sonora são pontos de destaque. Em um filme de recursos modestos, o som torna-se um elemento essencial para dar vida às brincadeiras e ao universo imaginativo das crianças. Em diversos momentos, o desenho sonoro amplia a experiência do espectador e cria uma atmosfera bastante imersiva.

Por outro lado, a fotografia apresenta algumas fragilidades. Embora a estética documental justifique determinadas escolhas, o uso recorrente de uma profundidade de campo muito reduzida faz com que algumas cenas permaneçam excessivamente desfocadas, dificultando a leitura da imagem. Em contrapartida, o trabalho de colorização é primoroso. A saturação das cores, especialmente nas sequências de brincadeiras, valoriza a paisagem do interior e reforça a sensação de ludicidade em meio ao isolamento daquela comunidade.

Ainda assim, essa construção visual acaba produzindo, em certos momentos, uma sensação de exotismo exagerado, reproduzindo alguns tropos de um olhar excessivamente estrangeiro sobre essa realidade. Trata-se de uma questão que ultrapassa este filme e pode ser observada em diversos documentários ambientados no interior do Brasil. Em muitos casos, quem possui acesso aos equipamentos e aos editais de financiamento pertence à classe média urbana, o que pode gerar um olhar inevitavelmente distanciado sobre comunidades mais pobres, ainda que realizado com as melhores intenções.

No conjunto, “A Fabulosa Máquina do Tempo” oferece um retrato sensível da infância no interior brasileiro. O documentário alcança seu principal objetivo ao capturar, com autenticidade, o sentimento de ser criança em um contexto marcado por dificuldades que se impõem desde cedo. Embora apresente algumas escolhas conceituais e técnicas discutíveis — especialmente na fotografia e no ritmo, que faz seus 72 minutos parecerem mais longos do que realmente são —, trata-se de uma obra relevante, capaz de emocionar e provocar reflexão sobre a infância, a imaginação e as desigualdades que atravessam o país.

Por Tiago Maia.