Desde os anos 90, adaptações de videogames para o cinema são consideradas tentativas quase impossíveis de dar certo. Talvez pelo caráter muito plástico dessa mídia, pela falta de familiaridade que os cineastas tinham com os materiais-base naquele período, por ainda se tratar de uma mídia muito recente ou por alguma outra razão que não se saiba. O fato é que, até pouco tempo atrás, os exemplos negativos eram muito maiores. Filmes como Super Mario Bros. e Street Fighter — apesar da exceção da primeira adaptação de Mortal Kombat — pareciam mostrar para o público e para os investidores que videogames eram uma mídia quase inadaptável.
Mas, três décadas depois, após os gamers sobreviverem aos filmes de Uwe Boll (diretor que realizou diversas adaptações tenebrosas de games) e a outras tranqueiras lançadas nos anos 2000, algumas coisas mudaram. Os filmes de quadrinhos entraram em decadência e Hollywood continua necessitando gerar lucro com propriedades intelectuais já conhecidas. Eis que, em 2026, a New Line Cinema lança “Mortal Kombat 2”, filme que faria muito mais sentido ter sido o responsável por reiniciar essa franquia no cinema.
Sequência de um longa fraco e esquecível lançado em 2021, “Mortal Kombat 2” se conecta muito pouco ao seu antecessor, mantendo apenas a continuidade do universo e deixando para trás diversos conceitos. No primeiro filme, o protagonista era um personagem inédito, e a direção, junto ao roteiro, parecia ter medo de ir além. Aqui, a história já começa com um dos personagens mais interessantes dos games, Johnny Cage, vivido brilhantemente por Karl Urban. O personagem é apresentado por meio de uma brincadeira com filmes de ação dos anos 90, claramente inspirada em Jean-Claude Van Damme (ator que também serviu de inspiração para o personagem original dos jogos) — uma excelente escolha estética e conceitual. Surpreende saber que o diretor Simon McQuoid é o mesmo responsável pelo filme de 2021, tamanha a evolução do trabalho.

O mérito da primeira metade do filme está justamente em equilibrar humor, ação e os elementos extremamente exagerados dos games de forma funcional, lembrando as melhores adaptações da Marvel em uma época em que o estúdio ainda realizava filmes com mais vigor. Ainda assim, um elemento interessante é que a trama não transforma Johnny Cage em protagonista absoluto. O filme abre espaço para diversos personagens terem seus momentos e, do segundo ato em diante, assume uma estrutura quase de filme de supergrupo. A dinâmica do torneio torna a progressão divertida de acompanhar, e o longa, por ser curto, não perde muito tempo com dramas desnecessários. Apesar de as primeiras cenas pesarem um pouco em diálogos expositivos, tudo ganha ritmo depois da introdução de Cage.
Um dos maiores acertos do longa é justamente o cuidado com a coreografia das lutas. Cada personagem possui um modo próprio de agir em combate, e a própria progressão dramática se constrói através dessas lutas. Os personagens evoluem tal qual um jogador de videogame, aprendendo com seus erros em combate e não através de sentimentalismo barato. A variação dos cenários também funciona, ajudando a diversificar confrontos que poderiam se tornar repetitivos. Alguns ambientes extremamente artificiais contribuem bastante para a atmosfera gameficada do filme. A luta entre Johnny Cage e Baraka, por exemplo, é muito bem filmada, possui ótima direção de elenco e um timing cômico na medida certa.

CRÍTICA DE MORTAL KOMBAT 2
Apesar de muito divertido e competente, “Mortal Kombat 2” peca em alguns pontos. Em determinados momentos, o roteiro parece um pouco disperso, com tramas paralelas que não chegam a ser ruins, mas acabam tirando espaço da objetividade — justamente o maior trunfo do filme. No terceiro ato, o visual e algumas motivações de personagens também perdem força e impacto, fazendo certas cenas parecerem repetitivas e com uma estética desgastada de produções recentes da Marvel ou da DC. Isso não estraga a experiência, mas faz com que a conclusão assuma um tom protocolar e formulaico demais.
Ainda assim, “Mortal Kombat 2” talvez seja um dos exemplos mais claros de que adaptações de videogame finalmente começaram a entender sua própria natureza. Em vez de tentar domesticar os exageros dos jogos para transformá-los em um blockbuster genérico, o filme abraça o absurdo, a artificialidade e a lógica de progressão dos games como parte essencial da experiência. Não reinventa a roda, mas compreende exatamente o que faz “Mortal Kombat” funcionar há mais de três décadas: carisma, violência estilizada, humor e espetáculo. Depois de tantos anos de adaptações constrangidas por vergonha do próprio material-base, ver um filme desse universo simplesmente aceitar o videogame como videogame já parece, por si só, uma pequena vitória.
Por Tiago Maia.
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