A série House of Guinness, criada por Steven Knight, mesmo responsável por Peaky Blinders, dramatiza a vida da família Guinness após a morte de Sir Benjamin Guinness, em 1868. Embora a produção tenha elementos ficcionais, sua base está profundamente ligada ao contexto histórico, político e social da Irlanda do século XIX, marcado por tensões religiosas, movimentos revolucionários e pela ascensão de uma das dinastias mais influentes da Europa.
O patriarca Benjamin Guinness
Benjamin Lee Guinness (1798–1868) foi o responsável por transformar a cervejaria fundada em 1759 por seu avô, Arthur Guinness, em uma potência internacional. Sob sua gestão, a marca deixou de ser apenas uma produtora local para se expandir para a Inglaterra e outros países, tornando-se a maior cervejaria do mundo nas décadas seguintes. Além de empresário, Benjamin também foi político conservador, membro do Parlamento britânico e filantropo, financiando, por exemplo, a restauração da Catedral de São Patrício em Dublin.
Sua ligação com a coroa britânica, porém, fazia dele uma figura controversa em uma Irlanda marcada por disputas entre protestantes e católicos. A morte de Benjamin, que abre a narrativa de House of Guinness, simbolizou não apenas o início de uma disputa familiar pela herança, mas também a transição para uma nova fase da história irlandesa.

Conflitos religiosos e políticos: a base de House of Guinness
No século XIX, a Irlanda ainda era dominada politicamente pela Grã-Bretanha, de maioria protestante, enquanto a maior parte da população local era católica e sofria discriminação. A família Guinness, protestante e aliada da coroa, ocupava uma posição de poder e riqueza que despertava ressentimento popular. A série reflete essa tensão ao retratar protestos contra o caixão de Benjamin e as acusações de proximidade da família com os britânicos.
Esse cenário de instabilidade se acentuava com a recente Grande Fome da Batata (1845–1852), que devastou a economia, reduziu a população por fome e emigração e fortaleceu o desejo de independência. O pano de fundo político da década de 1860 inclui a ascensão de William Gladstone como primeiro-ministro britânico, que tentou pacificar a Irlanda por meio de reformas e iniciou o debate sobre autogoverno, sem, contudo, resolver as tensões de forma definitiva.
Os Fenianos e o nacionalismo irlandês
Um dos elementos históricos centrais da trama é a presença dos Fenianos, movimento revolucionário fundado na década de 1850 com o objetivo de expulsar os britânicos da Irlanda. Inspirados pela diáspora irlandesa nos Estados Unidos, especialmente por veteranos da Guerra Civil Americana, os Fenianos organizaram levantes, arrecadaram fundos e até tentaram, em cinco ocasiões, invadir o Canadá como forma de pressionar a coroa.
A série incorpora esse movimento por meio de personagens como Ellen Cochrane, que representa o ativismo revolucionário e sua relação de confronto com a poderosa família Guinness. Embora não haja registros de negociações românticas entre membros da família e líderes fenianos, a dramatização ajuda a evidenciar a complexa rede de alianças e rivalidades da época.
O legado da família Guinness
Após a morte de Benjamin, os filhos Arthur e Edward herdaram a cervejaria. Edward, em especial, foi o responsável por expandir os negócios em escala global, consolidando a marca como sinônimo da Irlanda e tornando-se um dos homens mais ricos do país. Já Anne e Benjamin Jr., por diferentes razões, ficaram à margem do império familiar — um ponto explorado no roteiro da Netflix para destacar desigualdades de gênero e os limites impostos pela tradição.
O legado dos Guinness ultrapassa o setor empresarial: suas conexões políticas, religiosas e sociais moldaram a história irlandesa no século XIX. House of Guinness revisita esse período conturbado, unindo drama familiar a um retrato de um país em busca de identidade e liberdade.
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