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As Mortas (Las Muertas, 2025), série da Netflix inspirada na história real de As Mortas (Las Muertas, 2025), série da Netflix inspirada na história real de

Las Poquianchis e a história real de As Mortas, série da Netflix

A série mexicana As Mortas (Las Muertas), criada por Luis Estrada e disponível na Netflix, tem chamado atenção pela forma como mistura sátira, suspense e crítica social. A produção acompanha as irmãs Serafina e Arcángela Baladro, que comandam um império de bordéis no México dos anos 1960. Embora a trama seja uma adaptação do romance Las Muertas, de Jorge Ibargüengoitia, a origem da história está em um dos casos criminais mais chocantes da história mexicana: o das irmãs González Valenzuela, conhecidas como Las Poquianchis.

A história real das irmãs González Valenzuela

Na vida real, Delfina, María de Jesús, Carmen e María Luisa González Valenzuela operaram, entre 1950 e 1964, uma rede de prostituição que envolvia tráfico humano e assassinatos. A base de suas atividades ficava no Rancho El Ángel, em Guanajuato, mas os crimes se espalhavam por outras cidades da região. Estima-se que tenham sido responsáveis por mais de 90 mortes confirmadas, embora os investigadores da época acreditassem que o número real pudesse passar de 200 vítimas.

Las Pochianquis, que inspiraram a série da Netflix As Mortas
Las Pochianquis, que inspiraram a série da Netflix As Mortas

O caso veio à tona em 1964, quando três mães denunciaram à polícia o paradeiro de filhas desaparecidas. A informação partiu de uma jovem que conseguiu escapar de um dos bordéis controlados pelas irmãs. A polícia descobriu 19 adolescentes mantidas em cativeiro, além dos restos mortais de 17 jovens e cinco bebês. A descoberta horrorizou o país e transformou o sobrenome González Valenzuela em sinônimo de brutalidade.

A adaptação literária As Mortas, de Jorge Ibargüengoitia

O romance Las Muertas, publicado em 1977, trouxe uma versão ficcionalizada dos acontecimentos. Jorge Ibargüengoitia mudou nomes e situações, criando as irmãs Baladro em lugar das González Valenzuela. O autor mesclou documentos policiais, depoimentos e recursos de narrativa satírica para retratar não apenas a crueldade das protagonistas, mas também a corrupção política e policial que sustentava seus negócios.

Luis Estrada declarou em entrevistas que o tema central do livro é o mal e como ele se manifesta em indivíduos capazes de explorar as fraquezas do sistema. Para o diretor, a obra ofereceu a possibilidade de construir um retrato ambicioso do México, em que problemas do passado, como a impunidade e a violência contra mulheres, dialogam diretamente com questões do presente.

Entre a ficção e a realidade na Netflix

Na série, as irmãs Baladro seguem a mesma trajetória de ascensão e queda das verdadeiras Poquianchis. Elas começam administrando bordéis pequenos, expandem seus negócios e se tornam influentes ao se aliar a políticos e militares. A narrativa não linear mistura versões contraditórias sobre seus atos, reforçando a ideia de que a verdade depende de quem a conta.

Embora utilize recursos ficcionais, As Mortas mantém o espírito do caso real ao expor a violência sistemática contra mulheres e a cumplicidade de instituições que deveriam protegê-las. A história também se aproxima do realismo mágico latino-americano, lembrando Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, pela atmosfera que combina o absurdo, a violência e a sátira política.

O impacto de Las Poquianchis na cultura mexicana

O caso das irmãs González Valenzuela permanece vivo na memória coletiva do México. Além do livro de Ibargüengoitia, inspirou reportagens, estudos acadêmicos e outras representações culturais. O impacto foi tão grande que “Poquianchis” virou sinônimo popular para designar cafetinas violentas e exploradoras.

Ao adaptar essa história para o formato de série, a Netflix não apenas revive um episódio sombrio do passado, mas também propõe uma reflexão sobre a permanência da violência de gênero, da impunidade e da corrupção. Com humor satírico e uma trama envolvente, As Mortas transforma um caso real em um retrato social que continua a ecoar no presente.