O filme Nuremberg (2025), dirigido por James Vanderbilt e estrelado por Russell Crowe, revisita um dos capítulos mais importantes da história do século XX ao dramatizar os bastidores dos Julgamentos de Nuremberg. Em vez de concentrar sua narrativa apenas no tribunal, a produção acompanha a relação entre o líder nazista Hermann Göring e o psiquiatra militar americano Douglas M. Kelley, responsável por avaliar a sanidade dos principais réus antes do início do processo. Embora utilize recursos dramáticos, o longa é baseado em acontecimentos reais e em documentos históricos.
A história real por trás de Nuremberg (2025)
Poucos meses após o fim da Segunda Guerra Mundial, os Aliados decidiram levar os principais líderes do regime nazista a julgamento. Em novembro de 1945, foi criado, na cidade alemã de Nuremberg, um Tribunal Militar Internacional para julgar crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crimes contra a paz.
A decisão representou uma mudança histórica. Em vez de executar sumariamente os integrantes da cúpula nazista, como alguns defendiam, Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética optaram por estabelecer um julgamento formal, garantindo aos acusados o direito à defesa.
Esse procedimento buscava demonstrar que até mesmo os responsáveis por algumas das maiores atrocidades da história seriam julgados segundo princípios jurídicos, evitando que o processo fosse visto apenas como uma vingança dos vencedores da guerra.
Foi nesse contexto que Hermann Göring, considerado o segundo homem mais poderoso do Terceiro Reich depois de Adolf Hitler, tornou-se um dos principais personagens do julgamento.

Hermann Göring realmente foi interrogado por Douglas Kelley
O roteiro de James Vanderbilt adapta o livro O Nazista e o Psiquiatra, do jornalista Jack El-Hai, que reconstrói a relação entre Göring e o psiquiatra militar Douglas M. Kelley.
Após ser capturado pelas tropas americanas em maio de 1945, perto de Salzburgo, na Áustria, Göring foi enviado para um hotel transformado em prisão na cidade de Bad Mondorf, em Luxemburgo. Ali, Kelley passou semanas entrevistando o ex-líder nazista e aplicando testes psicológicos.
Durante as conversas, o médico descobriu que Göring era dependente de paracodeína, medicamento consumido em grandes quantidades. Sob supervisão médica, ele foi submetido à desintoxicação, perdeu peso e recuperou parte de sua disposição física antes do julgamento.
Ao longo desse período, Kelley percebeu que estava diante de um homem extremamente inteligente, articulado e capaz de exercer influência sobre qualquer interlocutor. O objetivo do psiquiatra era descobrir se existia algum transtorno mental que pudesse explicar os crimes cometidos pelos líderes nazistas.
Depois de meses de análises, a conclusão foi desconcertante: Göring e outros integrantes da elite nazista não apresentavam sinais claros de psicose ou insanidade. Para Kelley, tratava-se de indivíduos comuns que utilizaram inteligência, oportunismo, ambição e sede de poder para cometer crimes em escala inédita.

O julgamento de Nuremberg mostrou ao mundo os horrores do Holocausto
Grande parte dos diálogos exibidos em Nuremberg reproduz trechos reais das transcrições do tribunal.
Durante o julgamento, Göring tentou assumir o papel de principal porta-voz dos acusados. Com habilidade retórica, procurou justificar as decisões do regime nazista e frequentemente enfrentou os promotores com respostas calculadas.
Entretanto, um dos momentos decisivos ocorreu quando foram exibidos filmes produzidos pelas tropas aliadas durante a libertação dos campos de concentração.
As imagens mostravam sobreviventes em estado extremo de desnutrição, câmaras de extermínio e milhares de corpos encontrados nos campos nazistas. O impacto dessas filmagens foi enorme, tanto para os juízes quanto para a opinião pública internacional, pois ofereciam provas visuais incontestáveis das atrocidades cometidas pelo regime.
Documentos oficiais também demonstraram a participação direta de Göring na perseguição aos judeus e na implementação das políticas de extermínio promovidas pelo Terceiro Reich.
Como Hermann Göring morreu na vida real
Ao final dos Julgamentos de Nuremberg, Hermann Göring foi condenado à morte por enforcamento.
Entretanto, poucas horas antes da execução, ele conseguiu ingerir uma cápsula de cianeto dentro da cela e morreu na noite de 15 de outubro de 1946.
A origem do veneno permanece cercada por diferentes versões. Durante décadas, acreditou-se que algum guarda teria facilitado o acesso ao cianeto. Em 2005, o ex-soldado americano Herbert Lee Stivers afirmou que entregou involuntariamente um pequeno recipiente a Göring após ser enganado por uma jovem alemã.
Por outro lado, o próprio Göring deixou uma carta afirmando que havia escondido o cianeto desde antes de chegar à prisão, mantendo-o oculto dentro de um recipiente de creme para cabelo. Até hoje não existe consenso definitivo sobre qual explicação corresponde aos fatos.
Em outra mensagem deixada antes de morrer, Göring declarou que aceitava ser fuzilado como militar, mas recusava a execução por enforcamento, que considerava uma forma de humilhação.

O destino de Douglas Kelley também teve um desfecho trágico
O filme encerra sua narrativa reforçando a importância de compreender como regimes autoritários conseguem conquistar apoio popular.
Na vida real, Douglas Kelley continuou estudando o comportamento dos criminosos de guerra após retornar aos Estados Unidos. Publicou o livro 22 Cells in Nuremberg e passou anos ministrando palestras sobre suas experiências com os líderes nazistas.
Apesar do reconhecimento acadêmico, sua carreira nunca alcançou o prestígio que esperava. Problemas pessoais, episódios de depressão e o consumo excessivo de álcool passaram a fazer parte de sua rotina.
Em 1º de janeiro de 1958, aos 45 anos, Kelley ingeriu cianeto diante de familiares e morreu utilizando exatamente o mesmo método escolhido por Hermann Göring mais de uma década antes.
Seu fim acabou tornando-se um dos aspectos mais simbólicos da história retratada por Nuremberg. O psiquiatra que dedicou anos tentando compreender a mente de um dos principais líderes do nazismo acabou encerrando a própria vida repetindo o gesto daquele que havia estudado profundamente, reforçando a permanência das questões levantadas pelos Julgamentos de Nuremberg sobre responsabilidade, poder e a capacidade humana de cometer atrocidades.
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