A Netflix acaba de lançar A Nova Força (Skiftet), primeira série de época sueca da plataforma (assista). Com seis episódios, a produção transporta os espectadores para Estocolmo em 1958, momento decisivo para a história policial do país: a chegada das primeiras mulheres à corporação em condições de igualdade de treinamento com os homens.
Embora os personagens de A Nova Força sejam fictícios, a série é inspirada em um período histórico marcado por tensões sociais, resistência à igualdade de gênero e mudanças profundas dentro da força policial sueca.
A Nova Força: mulheres pioneiras na polícia sueca
A presença feminina na polícia não começou em 1958, mas bem antes. Em 1908, Estocolmo contratou as chamadas polissyster — “irmãs policiais”. Entre elas estavam Agda Halldin, Maria Andersson e Erica Ström, que tiveram funções bastante restritas, ligadas a casos envolvendo mulheres e crianças, revistas pessoais e a supervisão de presas. Muitas dessas pioneiras vinham de carreiras em enfermagem ou assistência social, reforçando a visão de que sua atuação deveria ser de apoio, e não de policiamento ativo.
Com o passar dos anos, as atribuições foram ampliadas. A partir de 1930, as polissyster puderam participar de interrogatórios, coletar relatos de vítimas de crimes sexuais e atuar em buscas envolvendo suspeitas mulheres. Em 1944, receberam treinamento formal em delegacias, e em 1949 tiveram acesso ao curso básico da academia de polícia, ainda dentro de um programa separado.
A mudança simbólica veio em 1954, quando o título de polissyster foi abolido e as agentes passaram a ser oficialmente reconhecidas como policiais. Apesar disso, suas funções continuavam limitadas e longe da realidade do patrulhamento regular.
O ponto de virada nos anos 1950
O verdadeiro avanço aconteceu em 1957, quando as mulheres foram aceitas na Academia Nacional de Polícia sob as mesmas condições que os homens. Pela primeira vez, puderam se preparar para atuar plenamente nas ruas.
No ano seguinte, 1958 — o período retratado em A Nova Força —, as primeiras formadas começaram a patrulhar Estocolmo uniformizadas. Entre elas estava Monika Kvarngard, designada para Klara, considerado um dos distritos mais violentos da capital e também o cenário escolhido pela série.
Apesar da conquista, a realidade estava longe de ser simples. As novas policiais eram alvo de desconfiança dentro das delegacias, recebiam tratamento condescendente da imprensa e ainda enfrentavam restrições práticas, como o uniforme pouco funcional.
O desafio do uniforme feminino
Um dos símbolos dessa desigualdade estava na própria roupa de trabalho. Nos anos 1950, as mulheres não usavam o mesmo uniforme que os colegas homens. Foi criado um modelo de “saia-calça”, pensado para manter a distinção visual de gênero, mas que restringia a mobilidade no patrulhamento.
O paletó não tinha bolsos funcionais para evitar olhares indesejados, os cassetetes eram mais curtos e até os chapéus foram adaptados para diferentes estilos de cabelo. Somente em 1974 a polícia sueca autorizou o uso de calças compridas para mulheres, passo importante para a padronização do uniforme e para a igualdade prática no trabalho.

A luta pela igualdade dentro da corporação
Durante os anos 1960, a presença de mulheres nas ruas gerou intensos debates públicos. Em 1964, um projeto de lei chegou a limitar novamente suas funções, direcionando-as apenas para investigações e tarefas consideradas “especiais”. Muitas policiais se mostraram insatisfeitas com esse retrocesso.
A plena igualdade só foi alcançada em 1971, quando o Ministério da Justiça autorizou as mulheres a exercerem todas as funções externas. A partir daí, homens e mulheres passaram a receber o mesmo treinamento, ter o mesmo equipamento e acesso às mesmas oportunidades na polícia sueca. Hoje, cerca de 35% a 38% dos policiais do país são mulheres, segundo pesquisas recentes.
O significado do título original Skiftet
Enquanto a tradução internacional adotou o nome A Nova Força, o título original em sueco, Skiftet, traz um sentido mais amplo. A palavra pode significar tanto “mudança” quanto “turno de trabalho”. Assim, além de remeter ao ingresso das mulheres em uma profissão tradicionalmente masculina, o título reforça a ideia de transição gradual — o processo de transformação de uma instituição diante das demandas sociais de igualdade.
Essa escolha ressalta que a série não trata apenas de casos policiais ou dramas individuais, mas também da construção de uma nova identidade coletiva dentro da sociedade sueca.
Ficção e realidade em A Nova Força
Na Netflix, a trama de A Nova Força acompanha personagens fictícios como Carin, Siv e Ingrid, que refletem os dilemas vividos pelas primeiras policiais suecas. A série mostra tanto os desafios no combate ao crime em Estocolmo quanto as tensões internas de um ambiente de trabalho que ainda resistia à presença feminina.
Ao recriar esse momento histórico, A Nova Força lança luz sobre uma fase muitas vezes esquecida da história sueca, quando um pequeno grupo de mulheres abriu caminho para a igualdade dentro da polícia e ajudou a transformar a sociedade.
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