Na primeira metade do século XX, Virgínia Bicudo (Gabriela Correa) é uma mulher negra, bem-sucedida academicamente que, após cursar a disciplina de Psicologia Social, decide buscar atendimento psicanalítico. Por indicação, ela chega até Adelaide Koch (Sophie Charlotte), a primeira psicanalista da América do Sul, uma judia que havia fugido da perseguição nazista na Alemanha e ainda falava pouco português. As duas iniciam o tratamento e desenvolvem um forte laço de amizade que vemos no longa Virgínia e Adelaide.
Virgínia, sobretudo, busca a psicoterapia para lidar com as implicações pessoais de uma vida inteira sendo alvo do racismo. Na infância, seus colegas de escola a chamavam pejorativamente de “pretinha”, o que a motivou a estudar com dedicação integral para provar seu valor. Mesmo com certa resistência inicial, ainda se habituando aos costumes do Brasil, Adelaide aceita a tarefa.
A Miscigenação, Colorismo e o Racismo em “Virgínia e Adelaide”
Virgínia é filha de pai negro retinto — cuja mãe havia sido uma escrava alforriada — e de mãe italiana, vinda de uma família que fugia da miséria para trabalhar nos cafezais paulistas. O filme aborda, em diversos momentos, as complexidades da miscigenação e a manifestação do colorismo.
A narrativa de “Virginia e Adelaide” também discute o impacto das ações do nazismo na Europa, abordando o movimento genocida com imagens de arquivo que evocam memórias sombrias. Adelaide teve vários parentes perseguidos e precisou abandonar amigos e familiares para escapar dos campos de concentração e recomeçar a vida no Brasil.
Outro ponto relevante é a evidência de um movimento brasileiro da década de 1930 que raramente recebe a devida atenção: o integralismo. Inspirado profundamente pelo fascismo europeu, o movimento era nacionalista, autoritário e tinha como lema “Deus, pátria e família”. Isso não te lembra alguma coisa?
Os conflitos de Virgínia e a questão do racismo trazem reflexões ainda presentes: a discriminação, o desrespeito e a falta de representação nas estruturas de poder. Mesmo com políticas afirmativas e alguns avanços lentos, a sociedade brasileira ainda guarda mais semelhanças do que contrastes com aquele passado — um cenário de permanências e retrocessos.

O papel da psicanálise, representado por Adelaide, é essencial para ajudar Virgínia a entender sua identidade, lidar com questões latentes desde a infância e elaborar suas relações familiares. A partir disso, ela encontra a estrutura necessária para seguir seu caminho e suas aspirações.
É interessante notar como o filme apresenta conceitos da psicanálise de forma quase didática: “resistência”, “transferência”, “neurose”, “sintoma”, “sonhos”, entre outros. Para quem se interessa pela área, é um prato cheio — e, em tempos em que a psicanálise vem sendo bombardeada por críticas e rotulada como “pseudociência”, é importante reafirmar seu valor como um importante campo do saber.
“Virgínia e Adelaide” é um filme baseado em figuras e acontecimentos reais, que nos lembra que certos assuntos devem ser sempre retratados nas telas — sem medo da saturação. Sem memória, corremos o risco da repetição.
O filme é dirigido por Yasmin Thayná e Jorge Furtado, com estreia marcada para 08 de maio nos cinemas.
Por Hélio Mesquita.
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