A premissa de algumas obras abre margem para grandes expectativas, porém quase sempre isso resulta em decepções. Tron – Ares tinha tudo para ser um divisor de águas, dado o momento histórico em relação às tecnologias que estamos vivendo, porém funciona, no máximo, como um bom compilado de cenas impactantes, com alguns intervalos de uma trama confusa e mal filmada.
Na trama, após os eventos de “Tron: Legado”, o mundo digital conhecido como A Grade permanece em constante evolução. Porém, um novo salto tecnológico cria uma ponte entre o ciberespaço e o mundo real. É nesse contexto que surge Ares, um programa altamente avançado criado para uma missão inédita: cruzar para o mundo físico. Se essa premissa se mantivesse, teríamos um belo filme, mas logo após apresentar conceitos interessantes sobre os rumos da sociedade em meio às IAs generativas e à pós-verdade — em uma cena de abertura maravilhosa — o filme descamba para uma trama clichê e extremamente mal desenvolvida. A parte interessante, que abriria margem para discussões e que é justamente o que torna a ficção científica mais envolvente, fica sempre no plano superficial.
A falta de inventividade fora da Grade em Tron – Ares
A direção do filme é assinada por Joachim Rønning, vindo de trabalhos operantes como “Malévola: Dona do Mal” e “Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar”. Se tem uma coisa que os dois filmes anteriores de “Tron” têm em comum é uma direção, no mínimo, inventiva e um timing para falar de tecnologia que poucas franquias possuem. Porém, neste filme, a tal inventividade parece ter ficado a cargo do time de VFX — e apenas deles.
As cenas dentro da Grade são maravilhosamente bem pensadas, editadas e mixadas, e ainda acompanhadas de uma trilha sonora épica assinada pela banda Nine Inch Nails. Todo o tom tecno-industrial que a fotografia de Jeff Cronenweth traz se combina com os toques da trilha sonora e forma cenas que fazem qualquer amante de música e tecnologia entrar em surto. Infelizmente, quase todo o resto do filme se passa no “mundo real”, onde acompanhamos uma trama de romantização de CEOs de big techs e romances extremamente mal construídos.

Elenco desperdiçado e personagens rasos
O elenco de “Tron- Ares” é liderado por Jared Leto como Ares e Jodie Turner-Smith como Athena, ambos com papéis centrais que carregam a narrativa quando conseguem. Também temos Evan Peters e Greta Lee — nomes de peso que chamam atenção no cartaz — mas que, em grande parte, aparecem mais como enfeites do que com funções realmente relevantes para a trama. Há estrelas que parecem estar ali apenas para preencher o nome no pôster, sem que o roteiro lhes dê espaço para se desenvolver ou agregar algo significativo à história, incluindo o vilão de Peters, que mais parece uma caricatura de um dono de big tech.
Jared Leto interpreta o protagonista Ares, que, em tese, deveria funcionar, pois o background do personagem é interessante: um ser sintético construído como um deus, que é levado à vida e à morte diversas vezes. Porém, o ator carece de carisma e emoção, e o personagem é escrito de forma morna, sem grandes riscos. Já a antagonista Athena, interpretada por Jodie Turner-Smith, é uma personagem muito mais interessante e escrita de forma mais envolvente. Talvez seja a única personagem aqui que realmente gera curiosidade e empatia.

Tron – Ares em ritmo irregular e direção perdida
O ritmo do filme também é problemático. Relações que deveriam ter certo desenvolvimento se apressam e deixam no ar a sensação de que algo foi “picotado”, gerando a impressão de que o filme é mais longo do que deveria e, ao mesmo tempo, falha em desenvolver a trama de forma coerente. São tantos subplots que o espectador acaba esquecendo os próprios motivos da trama ir para os lugares que vai.
A direção do filme parece perdida. Ao capturar o “mundo real”, filma tudo de forma operante e nada criativa. Ao mesmo tempo, os efeitos visuais trazem elementos fantásticos, como os rastros deixados pelos veículos dentro da cidade, mas cenas com enorme potencial são desperdiçadas. Nas mãos de um diretor mais interessado, o filme definitivamente elevaria seu patamar. Em muitas cenas, a sensação que fica é a de que uma grande oportunidade foi desperdiçada. Há exceção de uma sequência em uma realidade mais “analógica” — essa cena, apesar de inundada de nostalgia vazia, carrega um pensamento criativo interessante. Infelizmente, o ritmo dela também é atrapalhado pela montagem.

Um espetáculo de luz sem alma
“Tron – Ares” vale a pena em um aspecto: o espetáculo visual é realmente diferenciado. Assistir a uma cena de hacker no mundo de “Tron” em IMAX com certeza tem seu valor. Mas, para além desse vislumbre visual, não há muita coisa para absorver.
Assistir a “Tron – Ares” é como ver um sistema brilhante rodando com um código corrompido. É visualmente hipnotizante, cheio de ideias promissoras, mas vazio de emoção. O filme alcança seu auge quando se entrega à estética e ao som — um verdadeiro espetáculo sensorial —, mas se perde completamente quando tenta ser humano. No fim, fica a sensação de que estamos diante de um produto tecnicamente impecável, mas sem alma: um lembrete de que nem toda luz de néon consegue esconder o vazio por trás de um roteiro ruim.
Por Tiago Maia.
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