Nos anos 1980, um nome era destaque no cinema de horror independente: Sam Raimi. Raimi dirigiu a saga Evil Dead (também conhecida como A Morte do Demônio no Brasil), uma das obras de terror mais cultuadas de todos os tempos, e desde então sempre se mostrou um diretor versátil, mas com raízes firmes em seu estilo cartunesco e sombrio. Nos anos 90, depois de não conseguir realizar Batman, Raimi fez Darkman, uma versão exagerada e macabra do Homem-Morcego, e, nos anos 2000, dirigiu a trilogia Homem-Aranha, agora dotado dos maiores orçamentos e tecnologia que o cinema poderia lhe proporcionar. Mesmo após sair dos blockbusters, ele fez Arraste-me para o Inferno, um terror de primeira, e agora, em 2026, realiza “Socorro!”. Mas será que o tempo fez Sam Raimi perder a mão? Ou o diretor de clássicos do terror ainda sustenta seu estilo? Em um mundo dominado por filmes pseudointelectuais, que parecem ditar a tendência apenas por reciclar grandes temas, um filme novo deste diretor causa grande ansiedade.
Na trama de “Socorro!”, Linda Liddle (Rachel McAdams) é uma funcionária exemplar constantemente subestimada pelo chefe arrogante, Bradley Preston (Dylan O’Brien). Após um acidente aéreo, os dois acabam presos em uma ilha deserta, forçados a cooperar para sobreviver. Entre perigos naturais, jogos de poder e ressentimentos antigos, a relação se transforma em um duelo psicológico.

“Socorro!” e sua estrutura narrativa
O primeiro ponto a se destacar é que o filme começa muito bem: durante os créditos, vemos colaboradores de longa data de Raimi, Bill Pope na fotografia e Danny Elfman na trilha musical, mostrando que Raimi está “em casa”. A primeira parte da obra traz problemas reais do mundo do trabalho, com uma dose de humor e uma grande carga de realidade. Nesta primeira parte, o filme parece que vai se construir em torno de um terror trabalhista — o que parecia até bem conduzido — até chegarmos no primeiro grande ponto de virada da trama.
A partir de certo ponto, o filme vira de cabeça para baixo e se torna um horror de sobrevivência. Cabe destacar o belo trabalho de direção ao retratar o gore cartunesco que o diretor ama explorar: mesmo com um CGI imperfeito, o caráter bobo das cenas as deixa muito boas. Nessa segunda metade, o filme se baseia na interpretação e na química da dupla de protagonistas. Apesar de Rachel McAdams ir muito bem em seu papel, a química necessária para certas situações simplesmente não existe, prejudicando muito a condução da história. Os personagens até ensaiam um melhor desenvolvimento, mas parece superficial, e cada nova informação sobre eles serve apenas como um artifício para o roteirista construir situações.
O roteiro de Damian Shannon & Mark Swift parece um pastiche voltado para o terror do filme adolescente “S.O.S. do Amor”, onde aqui se recicla até o mesmo plot twist, e a escrita atrapalha demais a condução desta parte da trama. Felizmente, a direção criativa de Sam Raimi, junto à trilha de Elfman e à fotografia de Bill Pope, sempre trazem uma ou outra cena interessante, mas, nessa parte, o filme é enfadonho e repetitivo. A impressão que dá é: Sam Raimi pegou um roteiro qualquer e colocou ali seu tempero, mas o estilo do diretor parece ser um intruso na narrativa. O diretor se diverte, mas o público nem tanto.

Vale a pena ver “Socorro!”?
Na parte final de “Socorro!”, Raimi parece se lembrar de que é um consagrado diretor de horror, e o filme volta ao gênero com tudo — com jump scares propositalmente toscos e cenas escatológicas de rir e revirar o estômago. Parece uma nova mudança abrupta na trama, mas, na parte final, isso vem para melhor, pois o diretor resgata a agilidade da primeira parte do filme.
No final das contas, “Socorro!” ainda vale a pena, pois, apesar de ser um filme mediano, é mais bem dirigido e tem mais intenção em suas imagens do que a maior parte dos filmes da atualidade. Não é nem de longe um dos melhores filmes de Sam Raimi: tem problemas de ritmo e peca em não encontrar uma linha a se seguir, mas tem elementos o suficiente para gerar curiosidade em uma ida casual ao cinema ou em um sábado à noite, vendo em casa acompanhado de um bom lanche.
Por Tiago Maia.
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