Em 2017, Josh e Benny Safdie, dois youtubers parceiros do vlogger Casey Neistat, sacudiram o cenário do cinema independente com “Bom Comportamento”, um filme de assalto claustrofóbico e tenso que colocou o nome dos cineastas em destaque no mercado do cinema e mudou a carreira de Robert Pattinson. De lá para cá, algumas coisas mudaram: os irmãos alcançaram o cenário mainstream com o eletrizante “Joias Brutas” e, no cenário atual, agora fazem filmes separados. Agora, Josh Safdie, agora em carreira solo, lança “Marty Supreme” e, assim como este realizador subverteu o subgênero de filmes de assalto com “Bom Comportamento”, aqui ele subverte o subgênero de filmes de esportes. Mas será que, agora em carreira solo, o diretor sustenta um filme eletrizante?
“Marty Supreme” conta a história de Marty Mauser, interpretado brilhantemente por Timothée Chalamet, um aspirante a estrela do pingue-pongue em uma Nova York dos anos 50, em uma época em que este era um dos esportes menos valorizados da terra do Tio Sam. Marty, porém, é obstinado em ser o maior e vai usar de todo tipo de malandragem para conseguir o que quer.
O roteiro e estrutura narrativa em Marty Supreme
A primeira coisa a se destacar é o ritmo insano deste filme, que por meio da ação rapidamente nos coloca na mente e na rotina do protagonista. A vida dele vai de 8 a 80 em questão de horas: em um momento disputa uma competição na Inglaterra, no outro tem que se humilhar para o patrão lhe pagar. Nessa nuance está o mérito do roteiro em criar um personagem que, apesar de arrogante e prepotente, é um ser humano vulnerável e cheio de sonhos, extremamente identificável. O roteiro parece seguir, de certa forma, os ensinamentos do livro “Save the Cat” de Blake Snyder, que ensina que o protagonista tem que fazer algo no começo da história que faça o público instantaneamente sentir empatia. Justamente por isso, a dubiedade moral de Marty sempre é vista como algo justificável. O filme coloca o personagem em situações cada vez mais inusitadas, onde ele tem que tomar decisões cada vez mais questionáveis do ponto de vista ético, o que cria um sentimento constante de tensão — justamente porque, logo nas cenas iniciais, criamos um carinho pelo protagonista e torcemos por seu sucesso, apesar de reprovar várias de suas ações.
E apesar deste mérito na escrita, o roteiro por vezes também pode parecer inchado, pois a cada nova subtrama que adiciona, ele sente a necessidade de ir resolvê-la. Isso, em determinado momento, causa a sensação de que o filme deveria ter aparado algumas arestas, seja na sua escrita ou até mesmo na ilha de edição.

Marty Supreme tem fotografia e direção de Arte reconstruindo uma época
Em “Marty Supreme”, a fotografia é assinada por Darius Khondji, um dos maiores destaques do filme. Filmada em 35mm, é perceptível o uso da película na textura de cada quadro. E por mais que o diretor abuse de enquadramentos fechados e lentes com mais milimetragem, cada composição é montada para contar um pouquinho da história e do estado sentimental dos personagens. A paleta de cores, que aposta em tons frios, também serve para ilustrar muito bem os sentimentos presentes naqueles personagens.
As músicas tocadas no filme fogem do óbvio, e a escolha musical parte principalmente de bandas dos anos 80. Essa escolha anacrônica ajuda o filme a parecer um filme de época dos anos 50 realizado nos anos 80. Apesar disso, os anos 50 aqui retratados são um personagem à parte: uma bela reconstrução de época e um contexto social e urbano muito bem utilizado pela mise en scène do filme.

Elenco e Performance: atores e não atores
Além da performance magistral de Timothée Chalamet, o filme conta com atores e não atores que ajudam a dar um tom de realidade para todos aqueles personagens. Alguns atores aqui são escritores, dramaturgos, cantores e diretores que Josh Safdie chama para atuar. Destaque para os personagens vividos pelo cineasta Abel Ferrara, que passa uma energia terrivelmente macabra, e o amigo de Marty, interpretado com muito vigor pelo rapper Tyler, The Creator.
No fim, “Marty Supreme” é um daqueles filmes para se ver e rever numa tela grande, e apreciar que ainda existam cineastas com coragem e criatividade fazendo sucesso, em um mercado cada vez mais tomado pelo marketing e tendências das redes sociais.
Por Tiago Maia.
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