Edgar Wright é um dos diretores mais estabelecidos da atualidade; seu estilo dinâmico conquistou uma legião de fãs ao longo dos anos 2000 e 2010. Depois da decepção de Noite Passada em Soho (2021), o diretor retorna com O Sobrevivente ao gênero que o consagrou: a ação com toques de comédia.
A sinopse é a seguinte: “Em um futuro distópico, Ben Richards (Glen Powell) entra em um game show mortal chamado The Running Man (título original do filme) para conseguir dinheiro e salvar a filha. Ele precisa sobreviver por 30 dias enquanto é caçado por assassinos profissionais e pela população, em um espetáculo televisivo violento que manipula as massas”.
Em “O Sobrevivente”, Wright aposta em um ritmo alucinado e em uma trama simples (até certo ponto) que funciona pela agilidade do roteiro e pela montagem frenética; elementos que combinam perfeitamente com a temática de fuga imposta pela história. É um filme que não perde tempo e expõe com habilidade os componentes de seu universo enquanto a ação acontece. Fotografia, VFX, composição de cena e trilha sonora entregam exatamente o que se espera de um longa assinado por Edgar Wright; algo muito bem realizado e competente. Mesmo mais domado em comparação aos seus primeiros filmes de humor britânico escrachado, o diretor ainda arranca boas gargalhadas e entretém com sequências de ação muito bem construídas.
O mundo distópico com pitadas de cyberpunk não se diferencia muito de outras distopias, mas funciona como extrapolação direta do nosso presente, o tal capitalismo tardio. Embora inspirado no livro de Stephen King, o roteiro de “O Sobrevivente” parece flertar com o pensamento de Mark Fisher, autor do célebre “Realismo Capitalista”. Fisher usava filmes, música e videogames para entender o mal-estar contemporâneo, vendo a cultura pop como um termômetro social das tensões e crises do capitalismo tardio. “The Running Man” acerta ao parecer querer ser um objeto de estudo típico desse pensamento: sua base é uma crítica ao sistema político vigente. Porém, como um bom blockbuster financiado por grandes empresas do entretenimento, quando a crítica parece ficar certeira demais, ela é suavizada; o filme toca na ferida, mas nem tanto.

A construção do mundo em “O Sobrevivente” de Edgar Wright
O primeiro terço é envolvente e, apesar de a trama ser telegrafada desde o início, o carisma de Glen Powell sustenta o drama familiar. As primeiras cenas, que apresentam os desafios do protagonista em uma espécie de “Olimpíadas do Faustão hardcore”, são inventivas. A personalidade do personagem também é muito bem estabelecida nessa dinâmica de ação emocionalmente carregada, funcionando como uma exposição narrativa bem encaixada.
Nesse começo, tudo é eletrizante e cheio de críticas quase diretas à sociedade estadunidense. Em certo momento, “O Sobrevivente” parece rumar a um desfecho mais radical, mas opta por não seguir esse caminho. O problema é que a catarse acontece no meio do filme, especialmente na sequência mais interessante do longa, com o personagem de Michael Cera. É a partir daí que o viés conciliatório fica evidente, e o roteiro tem dificuldade em manter o mesmo nível de tensão; situações mais absurdas começam a ganhar espaço e o ritmo, antes intenso, passa a ficar um pouco enfadonho.

O legado e a crítica em “The Running Man”
Próximo da conclusão, “O Sobrevivente” escolhe um caminho mais interessante ao apostar na crítica à manipulação midiática. E, ao contrário do comentário político acovardado, essa crítica social é mais bem trabalhada. Usando a hipocrisia dos próprios portais de entretenimento para concluir o filme de maneira agridoce, Wright acerta e levanta questões que facilmente podem ir parar em uma mesa de bar.
“The Running Man” é uma aventura divertida e consciente de seu tempo; e, quando a tela apaga, resta a sensação de que, se o futuro parece brutal demais, talvez seja porque já estamos vivendo nele.
Por Tiago Maia.
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