A história da minissérie Refém (Hostage, 2025), que chegou à Netflix nos últimos dias, até poderia surpreender o assinante brasileiro, não fosse o circo político que vivemos e acompanhamos através dos jornais atualmente. Porém, como quase tudo na rede de streaming ganha lançamento mundial, damos um desconto e ligamos a suspenção de descrença para conferir a trama.
A trama segue após o marido da primeira-ministra britânica, Abigail Dalton (Suranne Jones), ser sequestrado e a presidente da França, Vivienne Toussaint (Julie Delpy), começar a ser chantageada durante uma visita ao Reino Unido, quando as duas líderes precisam fazer escolhas impossíveis visando o bem do país que lideram e da própria família, sendo forçadas a uma rivalidade intensa, que coloca em jogo o futuro político e a vida de ambas.
Jogo político contextualizado
O cenário é o seguinte: a França quer coibir a entrada de imigrantes que chegam através de solo britânico, com direito a patrulhamento francês em regiões de soberania da coroa, enquanto a Inglaterra vive uma escassez enorme de remédios, especialmente os voltados para o combate a doenças relacionadas ao câncer. As duas principais agentes nesta negociação seguram bem a onda e carregam os acontecimentos da séries nas costas.
Suranne Jones é quem mais dá significado ao título da produção, onde Refém (ou mesmo no título original, Hostage) a princípio se refere ao sequestro do seu marido, mas logo entendemos que o termo se aplica a muitas outras situações como a dedicação ao cargo, família, abusos conjugais, opinião pública etc.
Julie Delpy, eternamente lembrada como Celine na trilogia iniciada em Antes do Amanhecer, se mostra afiadíssima dando vida a uma líder política que enveredou para a extrema-direita, movimento feito (assim como muitos representantes do povo tem feito nos últimos anos) para angariar votos e ser reeleita. A forma como ambas se contrapõem e se aliam em momentos-chave é o grande barato de Refém.
Ares de novela em Refém
O enredo ganha conotações de novela com a quantidade de escândalos e reviravoltas reservadas. Toussaint teve um caso extraconjugal que pode derrubar a sua carreira política para sempre, enquanto Dalton está em constante crise seja pelo marido, filha, pai, parlamento… a pressão vem de todos os lados possíveis.

Talvez querendo vencer o que temos atualmente na história real, Refém tenta dobrar a aposta colocando situações nababescas que irão culminar – acreditem se quiser, numa conspiração golpista militar, na qual um líder das forças armadas quer nada mais nada menos do que a tão sonhada “mamata”. Ao que tudo indica, o Brasil tem inspirado ideias de série mundo afora.
Refém: vale à pena assistir à série da Netflix?
Pesa contra a suspensão de descrença a incoerência do roteiro ao não saber articular protocolos de segurança de líderes de estado, o que se agrava ainda mais quando levamos em conta países titulares no jogo político como França e Inglaterra. A quantidade de brechas na segurança (quando há poucas horas houveram atentados tanto contra a vida de parlamentares quanto a de pessoas da família) soa como algo que debocha da inteligência do espectador.
No mais, Refém é uma boa produção da Netflix liderada por duas competentes atrizes, mas que pode acabar escondendo muita galhofa atrás de uma pseudo intelectualidade.
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