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Pssica: série de Fernando Meirelles ganha trailer pela Netflix Pssica: série de Fernando Meirelles ganha trailer pela Netflix

Pssica: um tacacá na Netflix

Baseado no livro homônimo de Edyr Augusto, chegou a série Pssica na Netflix, com produção da O2 Filmes de Fernando Meirelles. Dividida em quatro episódios, formato que casa bem com a proposta da Netflix de serializar até produções que mais parecem filmes, Pssica consegue mostrar valores importantes  – principalmente no que condiz à região na qual é ambientada.

A história acompanha personagens-chave que se entrelaçam em algum momento da narrativa, contada no estado do Pará e por vezes na Guiana Francesa. Janalice (Domithila Cattete) é uma garota que tem um conteúdo íntimo criminosamente exposto na internet, fazendo com que sua família a renegue e, após uma série de situações, acaba sequestrada por uma rede de exploração sexual.

Mariangel (Marleyda Soto), uma ex-guerrilheira membro das FARC, tem sua vida arruinada após bandidos assassinarem a sua família, e agora ela quer vingança contra o grupo que tem como principal membro Preá (Lucas Galvino), que por sua vez, está perdidamente apaixonado por Janalice e irá tentar resgatá-la a qualquer custo.

Cidade de Deus paraense? Pssica poderia ter ficado alheia a isso

Algumas análises estão dando conta de que Pssica é como uma versão do clássico Cidade de Deus aplicado à ambientação paraense, e a princípio é até compreensível que isso ocorra. O envolvimento de Fernando Meirelles (diretor do filme de 2002) é o mais gritante deles, e isso vai sendo reforçado conforme temos um envolvente retrato de como funciona a dinâmica social naquele local do Brasil, o interior paraense – principalmente pela forte presença de meios de transporte marítimos (como canoas e jet skis) que levam a população até suas casas, igrejas, bares etc. Tudo na beira do rio Amazonas.

Porém, se em Cidade de Deus o retrato do êxodo da violência fluminense é colocado de forma magistral em tela, o mesmo não pode ser dito a respeito de Pssica. Cenas de ação desnecessárias (e em certos momentos inverossímeis, como no tiroteio após a morte de um grande líder de facção) e personagens pouco convincentes pelo excesso de caricatura acabam prejudicando a experiência, culminando em passagens embaraçosas na Guiana Francesa não pelo que é mostrado, mas pelo que Pssica apresentava como potencial em seu início.

E não posso condenar os colegas que trazem Cidade de Deus ao debate (até porque também estou fazendo isso) quando a produção escancaradamente coloca a fala “não sou mais Preá, agora vocês vão me chamar de Jonas”, invocando a célebre frase “Dadinho é o c@r**lho, meu nome agora é Zé Pequeno”. Os responsáveis pela série chamaram pra si essa responsabilidade de entregar uma produção nível Cidade de Deus, e acabaram falhando neste quesito. A atuação de Lucas Galvino, ainda que esforçada, não é nem um pouco beneficiada pelos roteiristas.

Além da ótima ambientação, Pssica tem mais coisa boa

Não que Pssica seja negligente em oferecer ao seu espectador bons momentos em tela. Em muitas cenas a ex-guerrilheira Mariangel rouba as atenções com suas habilidades, dando a impressão de que poderiam ter investido mais tempo de tela para a personagem. O perfil de Amadeu, policial aposentado interpretado por Sandro Guerra e que investiga o sumiço de Janalice, é agradável de acompanhar.

Domithila Cattete, que vive Janalice, está muito contida no papel e a falta de desenvoltura é devidamente entendida como parte da persona da protagonista. Porém, é nos momentos em que Jana precisa romper com as amarras impostas que acaba pesando a inexperiência da atriz, mas entrega o básico para que o público não abandone a série antes de sua complicada conclusão, num final apressado.

Vale à pena dar uma chance para esta série, porém, precisamos deixar o aviso prévio de cenas fortes – principalmente no que diz respeito à violência contra mulher. Se você possui algum gatilho em relação a isso, mantenha distância.