“O Caso dos Estrangeiros” (I Was a Stranger) é um filme de Brandt Andersen que se passa no auge da guerra civil síria, durante forte repressão do governo com relação aos dissidentes. Para aqueles que, como eu, não conhecem a fundo a situação dos conflitos territoriais no Oriente Médio, é preciso fazer um pequeno briefing: a Síria, no momento do filme, é governada por Bashar al-Assad, que, após suceder seu pai como liderança — contando inclusive com apoio geopolítico estratégico de nações estrangeiras — tem seu regime encerrado apenas em 2024. Bashar al-Assad, junto com seu pai, totalizaram mais de cinquenta anos de governança. O longa se passa no período posterior ao grande levante de 2011 (Primavera Árabe), no estopim da guerra civil, quando o governo reprimia violentamente os dissidentes, contando com cercos como estratégia de fome, e milhares de imigrantes sírios buscavam abrigo em outros países.
A Dra. Amira Homsi (Yasmine Al Massri) é uma médica que atende os feridos no hospital de guerra. Ela não faz distinção entre dissidentes e soldados e, por isso, é mal vista pelos integrantes das forças armadas. Durante seu aniversário, a família se reúne em uma alegre celebração; porém, sua casa é violentamente bombardeada, sobrevivendo apenas ela e sua filha. A Dra. Amira Homsi começa, assim, sua perigosa empreitada de cruzar a fronteira e ir para outro país.

O filme se divide em capítulos, nos quais vemos a relação de outros personagens e suas famílias com as atividades de imigração de refugiados. São eles: um soldado desertor, um traficante de pessoas, um homem refugiado com mulher e filhos pequenos e um capitão da guarda costeira grega. Todas as tramas desses personagens estão interligadas com a trajetória da personagem principal, que os encontra de uma maneira ou de outra durante o desenvolvimento de seu arco dramático.
O número de refugiados da guerra civil síria é alarmante. O total de pessoas forçadas a se deslocar foi aproximadamente 13,5 milhões, e os refugiados no exterior chegaram a cerca de 6,3 milhões (principalmente em países como Turquia, Líbano e Jordânia). Esse foi o maior desastre humanitário da história, mas recentemente foi desbancado pelo Sudão, com 14,3 milhões de deslocados. Esses deslocamentos, por si só, não impactam apenas as vidas dos refugiados, mas sim todas as populações dos países ao entorno. Dessa maneira, “O Caso dos Estrangeiros” possui um alcance de visão que atinge não só os indivíduos que sofrem diretamente com ele, mas também personagens que se preocupam em auxiliar ou outros que estão ali para, “enquanto os outros choram, vender o lenço”.
Crítica de “O Caso dos Estrangeiros”
Se pudermos avaliar a totalidade de “O Caso dos Estrangeiros” em uma palavra, esta é: estonteante. Não no sentido de causar náuseas, mesmo que seu conteúdo seja bastante pesado, mas pela atmosfera intensamente construída. O som das bombas caindo, os prédios destruídos, o destino imprevisível dos personagens. Tudo isso com a estética da câmera na mão, tremendo junto com os movimentos constantes do cenário, contribuindo para a imersão total. Tudo nessa produção é incrivelmente assertivo em seu objetivo de nos mostrar a situação dos refugiados, que arriscam suas vidas para fugir do cenário desolador de guerra. O filme se encerra nos pegando de surpresa: o que iniciamos achando que seria seu final adquire um outro significado, sendo, talvez, a cereja do bolo.
“O Caso dos Estrangeiros” já está nos cinemas.
Por Hélio Mesquita.
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