Alguns filmes têm como premissa básica proporcionar uma experiência imersiva, focada muito mais na contemplação do que em uma história complexa. Partindo dessa proposta — mas com uma guinada surpreendente — é que o filme “NADA”, dirigido por Adriano Guimarães, ganha força.
A sinopse é a seguinte: “Ana está montando uma exposição de seus trabalhos artísticos quando é obrigada a voltar para a fazenda onde viveu sua infância. Tereza, sua irmã, foi acometida por uma doença enigmática que altera seus estados de consciência. Durante sua estada, Ana tem que enfrentar os mistérios de sua própria memória.”
O ritmo do filme pode assustar. Mesmo sendo uma obra curta, sua cadência é lenta, com planos longos e poucas falas. Em certo momento, esse ritmo pesa, e por vezes a experiência beira o tédio. No entanto, da metade para frente, uma reviravolta na trama prende o espectador, e o filme passa a explorar elementos de ficção científica bastante originais. Essas inserções dialogam diretamente com os tempos de hiperconexão digital e de desconexão com o mundo real.
A direção aposta em um caminho mais contemplativo, valorizando o trabalho da arte e destacando os detalhes das casas da roça e sua iconografia. Em certos momentos, a condução parece um tanto autocomplacente — algumas cenas poderiam ser resolvidas de forma mais econômica.
A fotografia de André Carvalheira é um dos grandes destaques. O trabalho de iluminação interna é sublime: os ambientes são iluminados de maneira naturalista, mas com extremo cuidado estético. Isso cria uma atmosfera de conforto visual que entra em contraste com o comportamento dos personagens, sempre carregados de tensão, culpa ou amargura. Esse conflito narrativo quase invisível é um dos pontos altos do filme.
O som também contribui para a imersão. Com bastante textura, é possível ouvir os sons da natureza, das plantas, dos animais e até ruídos tecnológicos. Junto com os planos longos, cria-se a sensação de habitar aquele espaço.
As atuações são discretas, mas funcionais. No início, parecem mecânicas, mas, com o desenvolvimento da trama, revelam nuances importantes. O estilo minimalista faz sentido diante das personagens carregadas por culpa, insegurança e ressentimento.

A virada de NADA: entre o fantástico e o documental
Em determinado momento, o filme toma uma virada tanto na trama quanto na forma narrativa. Ao mesmo tempo em que flerta com o cinema fantástico, ele também se aproxima do cinema documental. A partir daí, “NADA” passa a discutir de forma mais direta temas como memória e pertencimento.
Além de Ana e Tereza, o olhar do filme se amplia para outros moradores da pequena comunidade rural. Os depoimentos que surgem a partir dessa nova abordagem — ainda que ancorados em uma premissa fantástica — soam extremamente reais. Esses testemunhos ajudam a orientar melhor a temática do longa, que até então parecia perdido em si mesmo.
Apesar de bem-vinda, essa virada narrativa faz com que a primeira metade pareça uma enrolação excessiva, enquanto o último terço, mais interessante, pareça um tanto apressado.
O pilar do filme são as irmãs Ana e Tereza, interpretadas por Bel Kowarick e Denize Stutz. O passado das duas é apenas sugerido, com menções breves, e toda a construção dramática se dá por meio de olhares, silêncios e frieza nos gestos. O que aconteceu entre elas nunca é revelado com clareza, e a reconciliação também acontece de forma subjetiva e cadenciada. O mérito do filme está justamente em emocionar sem recorrer ao melodrama ou ao didatismo, mantendo-se fiel a uma tradição de cinema menos convencional e mais autoral.
“NADA” é um belo estudo sobre memória, pertencimento e família. Apesar de falhar em questões de ritmo, é eficaz ao discutir as conexões humanas e ao inserir elementos fantásticos com relevância simbólica e social. O filme estreia em diversos cinemas do Brasil hoje, 31 de julho.
Por Tiago Maia.
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