Depois de explorar relacionamentos, amadurecimento e as possibilidades perdidas no belíssimo “Vidas Passadas” — indicado ao Oscar de Melhor Filme em 2024 —, a diretora Celine Song retorna com Amores Materialistas, uma comédia romântica com tons dramáticos que mantém o foco em conexões humanas e escolhas afetivas.
Na trama, acompanhamos Lucy (Dakota Johnson), uma especialista em arranjar encontros românticos para uma sociedade novaiorquina que deseja tudo de um parceiro — na busca de encontrar o par perfeito na metrópole mais populosa dos EUA. Ao prestigiar o casamento entre dois de seus clientes, Lucy conhece Harry (Pedro Pascal), irmão do noivo, rico, charmoso (e alto). No mesmo evento, ela reencontra John (Chris Evans), seu ex-namorado, que está trabalhando na festa. A partir daí, ela se vê dividida entre um novo destino luxuoso e a chance de retomar um amor antigo ainda mal resolvido.

Muitos temas bons em Amores Materialistas
Celine Song retoma aqui o interesse por tramas íntimas e escolhas difíceis, mas com um olhar mais leve, mesmo que não menos reflexivo. O ponto de partida é divertido, mas há muito mais sob a superfície. O filme se destaca por ir além do lugar-comum das comédias românticas. Ao retratar os desejos fúteis dos clientes de Lucy, “Amores Materialistas” aponta para a superficialidade das conexões modernas. Em tempos de Instagram e TikTok – onde a performance visual é tudo, a priori -, as pessoas buscam parecer interessantes — e não necessariamente ser — algo que ecoa diretamente o pensamento de Zygmunt Bauman suas obras sobre relacionamentos e vivências em nossa sociedade moderna, envolta nas redes sociais e “amores líquidos”.
Outro ponto que adiciona dramaticidade à trama é o curto arco de Sophie (Zoe Winters), uma cliente de Lucy que sofre violência em um encontro com Mark P. (que não aparece mas tem a voz de John Magaro, que fez parte do elenco principal em “Vidas Passadas”). A culpa que Lucy sente pelo ocorrido a transforma, ainda que sutilmente, afetando suas atitudes no terço final do filme. A direção trata o tema com respeito e sem sensacionalismo, o que só reforça o cuidado de Song com seus personagens. Infelizmente, casos como o de Sophie não estão restritos à ficção. Recentemente, a imprensa brasileira noticiou o caso de uma jovem que teve o rosto desfigurado após levar mais de 60 socos do namorado. Essa notícia, além de brutal, escancara o quanto a violência de gênero ainda é banalizada e subestimada.
Além disso, Celine Song insere uma crítica sobre como parte da sociedade encara o casamento: um contrato entre famílias com base em interesses mútuos — especialmente financeiros. Embora traga personagens sensíveis e humanos, “Amores Materialistas” também aponta o dedo para os excessos e a lógica dos relacionamentos na elite rica.

Dakota Johnson tem uma atuação competente – nada demais -, equilibrando as camadas de sua personagem quando necessário. Lucy é uma persona calejada, mas não insensível, e o filme demonstra isso ao longo da trama. Pedro Pascal, o queridinho do momento (Joel em “The Last of Us”; Reed Richards em “Quarteto Fantástico”), traz seu carisma característico a um Harry mais contido. Já Chris Evans é uma boa surpresa: seu John reflete a realidade de muitos adultos na faixa dos 30 anos — frustrados, porém cheios de potencial, mas canibalizados pelo sistema econômico inseridos — onde busca-se ter apenas dinheiro suficiente para pagar suas coisas sem preocupação.
A ambientação nova-iorquina (por mais pequena que seja) funciona como um personagem à parte, refletindo o glamour e a solidão dos personagens. Apesar de algumas lacunas de desenvolvimento — principalmente no arco de Harry —, a experiência é cativante e deixa um gosto de “quero mais”. Talvez, em outro formato (quem sabe uma minissérie?), a história tivesse ainda mais espaço para respirar.
“Amores Materialistas” surpreende ao abordar temas atuais e densos em diálogos reais numa narrativa envolvente e sensível. Celine Song mostra que sabe lidar com sentimentos complexos em tramas aparentemente leves — e pode até conseguir emocionar novamente. Muitos dizem que só o amor não basta, mas as vezes, o amor (leia-se cuidado e reciprocidade) é o que muitos precisam.
Com distribuição da Sony, “Amores Materialistas” estreia nos cinemas nacionais a partir do dia 31 de julho.
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