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Morte e Vida Madalena: cinema cearense e ruptura trans Morte e Vida Madalena: cinema cearense e ruptura trans

Morte e Vida Madalena: cinema cearense e ruptura trans

Filme de Guto Parente chegou ao cinema cearense

Após a morte do pai, Madalena se vê responsável pela produção de um filme em que o diretor, seu ex-marido, some e deixa para trás um cenário caótico, em que não há dinheiro nem liderança para a continuidade do trabalho da equipe técnica. Lidando com a gravidez, o luto e a responsabilidade, ela busca um substituto para a direção, mas isso deixa tudo ainda mais imprevisível e instável. Essa é a premissa de “Morte e Vida Madalena”, uma produção cearense que estreou nacionalmente nos cinemas na última quinta-feira (17/09).

É preciso reiterar o que se tem dito sobre a obra: “Vida e Morte Madalena” começa quebrando um paradigma do senso comum na escalação de seu elenco. Noá Bonoba, importante atriz trans cearense, interpreta Madalena, uma mulher cis grávida que precisa lidar com todo tipo de infortúnio que possa acontecer em um set de filmagens. Ao assumir o papel de uma mulher cis, ela faz o oposto do que costuma ocorrer nas artes cênicas, em que pessoas cis interpretam pessoas de outro gênero e, além disso, quebra a narrativa sobre pessoas trans que usualmente são levadas a um lugar exclusivo de dor e sofrimento — o que devemos admitir ser bastante natural no país que mais registra assassinatos de pessoas trans e travestis no mundo. Porém, o papel de Madalena, interpretado por Noá, leva a uma visão de plena integração de pessoas trans ao cinema, em contraponto ao que conhecemos do conservadorismo que estigmatiza e trata pessoas trans como seres alheios à sociedade como um todo.

Um ponto de destaque é o multifacetado tom de comédia e drama que o filme produz. Transitando entre o riso escrachado e cenas dramáticas, há momentos em que não sabemos se a reação correta é rir ou chorar. O tema é fascinante: um set de filmagens em profunda crise. A metalinguagem pega pelo coração: um filme sobre um filme. Nada fascina tanto um fã de cinema — alô, Truffaut! Mas, neste caso, diferentemente de “A Noite Americana, não se assemelha a um documentário: é um absurdo levado ao máximo que, de tão radical, consegue ser ainda mais uma reprodução do real. E isso dá uma pincelada de camadas que, mesmo que o público em geral também gargalhe, somente os apaixonados por cinema vão compreender as referências em sua totalidade.

“Morte e Vida Madalena” é de Guto Parente, reconhecido diretor cearense que, junto com Pedro Diógenes, dirigiu o filme “Inferninhoem 2018, com participação do grupo de teatro Bagaceira, um longa-metragem que faz parte da lista dos 100 filmes essenciais da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Além disso, dirigiu dezoito filmes em sua carreira, entre curtas e longas, participando de festivais importantes da cena internacional, sendo considerado um dos mais ativos cineastas do Brasil.

Vivemos um momento magnífico no cinema cearense. Mesmo à margem dos recursos financeiros e com a dependência estrutural latente de um circuito sudestino, estamos costurando uma rede independente de economia produtiva que favorece o surgimento de produções de qualidade artística e técnica altíssimas, inquestionáveis quando postas em comparação com quaisquer outras produções nacionais. São muitos espaços formativos e um circuito que permanece aquecido. Não à toa, este ano tivemos “Feito Pipa, de Allan Deberton — cineasta cearense —, escolhido como representante na premiação do Oscar 2027. Porém, ainda temos um problema grave de distribuição, que nos põe na retaguarda em relação a filmes estrangeiros.

Às vezes, uma ida ao cinema na semana de estreia favorece a permanência de um filme local em cartaz. Dito isso, é muito importante que você vá ao cinema assistir a “Morte e Vida Madalena”, e garanto que você não vai se arrepender — se não gostar, eu pago seu ingresso, viu! Brincadeira, mas pago um café para você me explicar o motivo inexplicável.

Por Hélio Mesquita.