A comédia é um elemento que faz parte do ethos da identidade cearense. Desde registros do final do século XIX, historiadores relatam o “Ceará moleque” como um rótulo ostensivo local. Nas últimas décadas, isso vai além de uma nomenclatura para descrever a cultura irreverente do estado e passa a ser um ativo econômico. Com uma insurgência de comediantes e apresentações em bares e restaurantes, o humor é um atrativo turístico difundido nacionalmente não só por empresas de viagens, mas também em peças publicitárias do próprio governo do estado. É óbvio que o cinema de Halder Gomes se encaixa nessa estratégia de promoção e faz parte dos interesses regionais, mas é preciso ver além disso: o que seus filmes representam culturalmente para nosso estado?
O filósofo Henri Bergson, em seu livro “O riso”, discorre sobre o papel do humor e seu sentido para a sociedade. Para ele, o humor tem uma forma muito clara de atuação: corrige os automatismos e os vícios da sociedade. Quando se ri de alguém, usualmente se ri de suas falhas e, ao se ter consciência dessas falhas, quem ri não reproduz esse comportamento. Por isso, as comédias, às vezes tratadas como uma espécie de “arte menor”, são uma ferramenta poderosa e causam temor ao seu objeto alvo. Molière, famoso dramaturgo francês e escritor de comédias, teve a peça “Tartufo”, extremamente crítica, censurada por incomodar a burguesia da época, tendo que reescrever sua peça várias vezes e apelar ao próprio Luís XIV (o Rei Sol) para que fosse liberada. Isso nos faz pensar que o humor também é profundamente político, e que rir pode reforçar ou apoiar grupos minoritários dentro da sociedade.
A discussão sobre o papel do riso nos faz encontrar algo novo dentro da comédia, que dificilmente encontramos em outro contexto. Como foi dito, o Ceará tem a comédia como fator de muita importância em sua identidade; isso faz com que o humor possua outra função. Em vez de funcionar como um corretor de vícios e automatismos, utilizamo-lo como reforço de nossa própria autoestima. Toda vez que um cearense dá uma gargalhada, ele prova para si e para os outros que sua existência possui um peso intelectual e cultural que não existe em outro lugar no país. O humor tem um lugar de troca, com símbolos que representam quem somos enquanto um povo, à sua maneira, distinto.
Entramos, então, nos filmes de Halder Gomes, que são parte dessa vivência. Tudo o que foi discutido até aqui se encaixa no que é proposto pelo diretor. Aliando humoristas e atores locais e nacionais, além de distribuidoras de peso internacional, em muitas esferas a identidade cearense é levada a circular e difundir seus elementos, mesclando símbolos típicos locais e construindo uma visibilidade ampliada do Ceará como terra “moleque”. O primeiro “Shaolin do Sertão” constituiu um marco regional e apostou em narrativas clássicas de superação e romance, além de elementos dos saudosistas filmes de kung fu, seguindo os passos da hoje tão discutida “jornada do herói”. Esse contexto favoreceu a assimilação por parte do público, permeando o circuito nacional.
“Shaolin do Sertão 2” dá seguimento aos mesmos temas discutidos no primeiro, vindo na esteira de um filme que reverberou e gerou bastante atenção. Porém, devemos ponderar sobre sua proposta. O filme não inova, nem se preocupa em arejar a fórmula padrão de Halder Gomes. As piadas e os trocadilhos são tão repetitivos que, se esta crítica fosse lida a cada vez que um personagem fala “meus ovos”, eu já estaria trabalhando em um caderno de arte de um jornal. Então, por que essa discussão toda para chegar nesse ponto? Porque o filme não é ruim e nem deixa de cumprir sua tarefa. “Shaolin do Sertão 2” ainda cumpre seu dever de demarcar o papel social do cinema para o cearense: o riso, o deboche, a identidade. Seu valor é intrínseco, mesmo que, por vezes, não seja qualitativamente correspondido.
Com grande elenco, a amálgama que construiu o sucesso de filmes anteriores continua firme e forte. É um filme para levar a família, gerar gargalhadas, comer pipoca. Até mesmo para você, cabra fuleragem, que só assiste filme de arte. Por trás de grandes comédias pode não haver grandes reflexões, mas, se você reparar bem, até pode ser que haja.
“Shaolin do Sertão 2” está nos cinemas. Vai ver, macho!
Por Hélio Mesquita.
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