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Livros Restantes, filme estrelado por Denise Fraga - Crítica Livros Restantes, filme estrelado por Denise Fraga - Crítica

Livros Restantes: uma sensível obra de Márcia Paraíso

Em Livros Restantes, Ana (Denise Fraga) é uma mulher madura que planeja se mudar para Portugal. Sua viagem não representa somente uma mudança banal, mas sim o fim de um ciclo de uma vida inteira de afetos e tensões vividas em Barra da Lagoa (Florianópolis) onde se passa o filme. Após uma vida inteira como professora, acumulou livros e decidiu se desfazer deles para seguir seu caminho tranquila, mas, com apenas cinco restante, estes foram presentes e possuem uma dedicatória tão significativa em sua vida, que resolve devolver pessoalmente a quem a presenteou.

Cada encontro de Ana com as pessoas que lhe presentearam é um fluxo de sentimentos ora bem resolvido, ora nem tanto. Suas relações não escaparam à influência do tempo e envelheceram, assim como as pessoas e suas personalidades. Em cada encontro Ana lê as dedicatórias para quem as escreveu e as reações são as mais diversas, desde um caloroso encontro até a profunda ignorância. 

Essa atitude de Ana traz a reflexão sobre o passado e a ação do tempo. Como seria reencontrar seu primeiro amor de adolescência? Ou mesmo sua grande amiga que não a vê há tempos, mas que mudou completamente de vida? Para Ana, isso é necessário, pois não deseja carregar os afetos e relações mal resolvidas na bagagem para Portugal, mesmo que para isso tenha que passar por situações que evocam sofrimento. 

Com alta sensibilidade,  a diretora conseguiu produzir uma obra que, de início ao fim, leva o público a sentir junto com a protagonista essa despedida conturbada, mas necessária, que atravessa situações da maturidade pessoal que não dizem respeito apenas à velhice, mas à vida adulta em geral. Encontros e desencontros, pessoas que saem das nossas vidas subitamente e outras que permanecem, seja de maneira compulsória – como ex mulheres e maridos – e outras de maneira voluntária, tenra e perene, como bons amigos.

Um ponto que é importante que se toque a situação que Ana enfrenta com seu tio. Mesmo tendo guardado em segredo, ela fora abusada por ele, um velho grosseiro e beberrão, em sua infância. Preocupada com a estabilidade da família, ela se mantém silente até o momento que a situação a leva a confrontá-lo no filme. Isso é preciso ser destacado por ser um assunto corrente no debate atual sobre aborto em crianças vítimas de estupro. Há, por mais absurdo que pareça, quem não acredite que não exista esse tipo de relação no seio familiar e que isso seja apenas uma forma de legitimar uma pauta de ativistas. Apesar de Ana não ter passado por uma gravidez, o filme explora de forma cirúrgica como se pode sim haver abuso sexual com crianças mesmo dentro de família. 

Livros Restantes, filme estrelado por Denise Fraga - Crítica

Com uma equipe majoritariamente feminina, escrito e dirigido por Márcia Paraíso em uma coprodução Brasil-Portugal com a Plural Filmes e distribuição da H2O Films. Márcia Paraíso é uma cineasta, diretora, roteirista e jornalista brasileira. Com uma extensa carreira, foi responsável, desde 1993, por diversas obras documentais, incluindo o longa-metragem Terra Cabocla, que aborda a resistência do povo caboclo na região de Santa Catarina. Além disso, possui no seu currículo séries tanto documentais quanto ficcionais. Livros Restantes é seu terceiro filme de ficção, seguido de Lua em Sagitário (2016) e Alegria do Amor (2025). É preciso ressaltar que, mesmo que com um currículo extenso e reconhecido da diretora, ainda há uma situação contraditória no país.

 O cinema nacional ainda possui um espaço pequeno para diretoras nos seus sucessos comerciais, segundo relatório do Observatório do Cinema e do Audiovisual (OCA) da Ancine, apenas 20,9% da lista dos vinte maiores filmes de sucesso nacional entre 2019 e 2023 foram dirigidos por mulheres. Nesse cenário onde a presença masculina ainda é dominante, Márcia Paraíso quebra com sensibilidade a barreira dessas produções, principalmente ao propor uma protagonista que enfrenta uma jornada sentimental feminina intensa, diferente do que se vê usualmente na indústria nacional e internacional. Com um forte elenco, principalmente na figura de Denise Fraga, o filme é uma excelente obra. Se o limbo que é o cinema nacional quando se trata de filmes dirigidos por mulheres tragar o filme, saberemos que, portanto, a indústria enfrenta um problema delicado a se questionar seriamente.

Por Hélio Mesquita.