[COSMO] Topo Home e Posts
Cena do filme dinamarquês Filhos Cena do filme dinamarquês Filhos

Filhos: uma narrativa psicológica sobre justiça, trauma e abuso de autoridade

Filme dinamarquês retrata a vivência de uma mãe (e agente penitenciária) e o assassino de seu filho

Com uma ambientação sonora composta por passos, portas abrindo e fechando, e falas abafadas, a prisão onde se passa Filhos (“Vogter” no original) — nova produção dinamarquesa dirigida por Gustav Möller — é um espaço claustrofóbico e frio. Eva (Sidse Babett Knudsen), a protagonista, é agente penitenciária e trabalha em um setor de menor segurança, lidando com detentos obedientes em uma rotina tranquila, desenvolvendo com eles certa empatia e até carinho.

Essa estabilidade começa a ruir com a chegada de Mikkel (Sebastian Bull Sarning), um preso de segurança máxima transferido após matar um colega de cela. O que não é revelado de imediato é que a vítima era o filho de Eva. Movida pela dor, ela solicita transferência para o setor de segurança máxima e inicia um processo de interação punitiva com Mikkel, negando-lhe até mesmo cigarros. Após um confronto, ele é levado à solitária.

Durante uma revista geral na prisão, Eva planta drogas e uma faca na cela de Mikkel. Quando os itens são descobertos, ela o agride violentamente, causando-lhe fraturas cranianas. No entanto, graças às câmeras de vigilância, o caso vira contra ela. Com o apoio de uma advogada, Mikkel tem a chance de processar Eva — e, a partir daí, as relações de poder se invertem: ele passa a chantageá-la para obter benefícios dentro do presídio.

Crédito: Nikolaj Moeller.

Filhos: Foucault, o panóptico e o jogo de poder na prisão

A prisão é um dos maiores exemplos da micropolítica descrita pelo filósofo Michel Foucault. Muito além do que entendemos por política tradicional — como um poder centralizado na figura do Estado —, a política também atua em escalas menores, especialmente em instituições como hospitais, escolas e prisões. Quando Eva nega os cigarros a Mikkel, esse pequeno gesto adquire um peso simbólico e político: é uma punição seletiva baseada em sua posição de autoridade.

Se todos recebem cigarros, menos Mikkel, trata-se de uma decisão arbitrária que implica discriminação, possível apenas a partir da posição de poder ocupada por Eva. Ao plantar drogas e uma faca na cela de Mikkel, ela reafirma essa vantagem, exercendo um tipo de autoridade que permite esse tipo de ação — ainda que claramente antiética.

Outro ponto discutido por Foucault é a estrutura de vigilância chamada “Panóptico”. Essa lógica é intrínseca ao sistema prisional: tudo está sendo visto, tudo está sendo vigiado. Foi exatamente por isso que Eva acabou prejudicada. A partir das gravações do momento em que agrediu Mikkel, a advogada da prisão informou que ofereceria ao detento a oportunidade de entrar com uma ação. Assim, invertem-se as relações de poder entre Eva e Mikkel. Com a possibilidade de chantageá-la, Mikkel passa a usar essa vantagem para se beneficiar dentro da prisão.

Mesmo que a atmosfera seja carregada, fria e opressiva, o filme oferece nuances no desenvolvimento de Eva. Ainda que motivada por vingança, ela parece brevemente acreditar na possibilidade de reabilitação de Mikkel — um gesto contraditório, mas que enriquece sua construção dramática. No entanto, “Filhos” não entrega redenções fáceis. A narrativa evita o conforto de finais felizes e permanece firme em seu realismo brutal.

“Filhos” estreia nesta quinta-feira, 31 de julho, em alguns cinemas pelo Brasil.

Por Hélio Mesquita.