Há mais de 20 anos, o diretor Danny Boyle, o roteirista Alex Garland e o diretor de fotografia Anthony Dod Mantle trouxeram ao mundo Extermínio (2002), um filme de zumbi que, para a época, foi inovador ao usar uma abordagem mais “realista” ao retratar os mortos-vivos. Além disso, inovou tecnicamente ao filmar com câmeras portáteis, imprimindo à obra uma estética diferenciada. Mais de duas décadas depois, esse trio retorna em Extermínio: A Evolução, um filme que inova, mantém certas tradições da franquia e segue por caminhos extremamente imprevisíveis.
A brutalidade e a emoção em “Extermínio: A Evolução”
“A Evolução” se passa 28 anos após uma doença que infecta pessoas e as leva a um estado de loucura e selvageria ter tomado toda a Grã-Bretanha. Nesse contexto, acompanhamos Jamie (vivido por Aaron Taylor-Johnson) e seu filho Spike (interpretado por Alfie Williams), que vivem em uma comunidade isolada da infecção, em uma ilha com uma passagem que emerge do mar por poucas horas ao dia. Pai e filho partem até o continente em uma espécie de rito de passagem para o garoto — essa missão representa o que o filme tem de mais parecido com o longa original: tensão, cenas de ação de tirar o fôlego e muita violência, filmada das formas mais criativas possíveis.
Na trama, a esposa de Jamie e mãe de Spike, Isla (vivida por Jodie Comer), sofre de uma doença misteriosa, e a criança resolve cruzar o continente em busca do Dr. Ian Kelson, interpretado pelo sempre bom Ralph Fiennes. A história é simples, com batidas que lembram muito “The Last of Us”, “Um Lugar Silencioso” e outras obras pós-apocalípticas. E mesmo utilizando tropos comuns e até conveniências de roteiro para avançar a narrativa, ela funciona muito bem, pois os personagens são complexos — especialmente mãe e filho, que se mostram cativantes.

O tema da maternidade e paternidade é presente em todo o filme e, por competência do roteiro de Alex Garland, da direção de Danny Boyle e das excelentes atuações, o elemento emocional da história funciona. Em certo momento, até me emocionei. Por mais megalomaníaco e experimental que o longa seja, o elemento humano e os sentimentos dos personagens são sempre colocados como prioridade pelos realizadores.
Para os amantes do cinema de ação, este também cumpre — e até supera — as expectativas. O filme utiliza técnicas inovadoras de posicionamento de câmera e montagem para criar sequências verdadeiramente intensas e desconfortáveis. Os infectados aqui estão mais brutais do que nunca, e alguns com certeza irão surpreender o público, com designs criativos e funções narrativas interessantes. Os efeitos visuais, e principalmente os efeitos práticos, são de tirar o fôlego. Toda uma lore é construída a partir deste vírus que tomou esse espaço. A maior parte das particularidades desse mundo é explicada de forma visual. Alguns elementos soam expositivos, mas não diria que isso é uma falha do roteiro, pois são bem encaixados. Apesar disso, visualmente é sempre melhor — na maior parte do tempo, o roteiro nos poupa de muitas explicações e foca em impactar por meio do poder das imagens e da brutalidade vista em tela.
Em “Extermínio: A Evolução”, os infectados passaram por diferentes tipos de modificações, mas a humanidade também. Vemos que essas criaturas já fazem parte da cultura e dos costumes dos povos retratados no filme — e eles nos assustam muito mais do que assustam os próprios personagens. Para as pessoas, os infectados são um perigo da natureza, algo inevitável que já faz parte do dia a dia. Ao mesmo tempo, nesta terceira parte da saga “Extermínio”, vemos Danny Boyle flertar com o gênero mais clássico de zumbis, e até mesmo, em alguns momentos, com a estética trash. Em comparação ao primeiro filme, que tem um tom mais sóbrio e realista, essa novidade é bem-vinda. Pode gerar estranhamento, mas é devidamente bem desenvolvida.
Danny Boyle volta a inovar no cinema com iPhones e zumbis?

Em algumas sequências, vemos nuances nos próprios infectados, seja por meros trejeitos ou até resquícios de sentimentos, que mostram que um dia também foram humanos — e, assim como nós, estão neste mundo tentando sobreviver.
Danny Boyle é um dos cineastas da atualidade que mais experimenta novas tecnologias e as incorpora ao cinema. Aqui, ele filma quase todo o projeto com múltiplos iPhones 15 Pro Max, devidamente equipados com apetrechos tecnológicos de última geração. A textura e movimentação de câmera diferentes deixam claro que este filme não foi feito de forma convencional. A escolha desse dispositivo, tanto por ele quanto pelo diretor de fotografia Anthony Dod Mantle, conversa com a decisão de utilizar câmeras digitais portáteis para gravar o primeiro “Extermínio”. Uma forma de experimentar as novas possibilidades do audiovisual, que, para a época, foi algo inovador e gerou tanto críticas quanto aclamação — sendo hoje estudado como um fenômeno curioso no cinema mainstream em relação à experimentação tecnológica.
A conclusão de “Extermínio: A Evolução” vai mais para o lado emocional e humano do que qualquer outra coisa. A evolução do protagonista Spike é nítida, e o carisma do ator faz com que nos afeiçoemos a ele. E a cereja do bolo é uma das últimas cenas, que faz com que o filme termine de forma inesperada — abraçando até mesmo o lado mais cartunesco do cinema de horror. Um segundo filme já está em produção também.
Por Tiago Maia.
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