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Delírio - filme de terror dirigido por Alexandra Latishev Salazar Delírio - filme de terror dirigido por Alexandra Latishev Salazar

Delírio: terror em nome da avó, da mãe e da filha

Produção latinoamericana chega aos cinemas e merece uma chance nas telonas

Delírio é um filme de terror dirigido e escrito por Alexandra Latishev Salazar. A produção acompanha Marsha (Helena Calderón), que se muda com a mãe, Elisa (Liliana Biamonte), para a casa da avó após a morte do pai. A avó, idosa e com demência, vive em uma casa sombria repleta de crucifixos, onde uma empregada doméstica cuida dela e do lar. Um mistério envolve a figura do avô de Marsha e, além disso, ela também insiste que seu pai não morreu. Quando Elisa decide demitir a empregada e tornar a mãe reclusa, estranhos acontecimentos começam a tomar conta do ambiente.

“Delírio” não abusa do suspense gratuito, nem de cenas que causam medo imediato, a atmosfera é construída em cima das relações entre avó, mãe e filha, que possuem traumas e fragilidades psicológicas que as afetam de maneiras diferentes, mas que se conectam e geram uma poderosa massa de ansiedade e conflito. Sem jump scares ou monstros caricatos, o filme opta por uma abordagem sutil, mergulhando no desconforto e na ansiedade de suas personagens, em um terror mais humano e psicológico.

As interpretações são excelentes. Helena Calderón, no papel da jovem Marsha, consegue envolver o público com seu humor ora de tédio, ora de medo, e também da não aceitação do luto na falta que sente de seu pai. A avó, com sua fragilidade e delírios, compõe o tom sombrio da narrativa, enquanto Elisa se destaca como o elo de sustentação da família, uma mulher dividida entre o cuidado com a mãe e a proteção da filha, mas consumida pela própria paranoia.

“Delírio”: O terror das relações e da herança emocional

O filme ousa em seu formato, e não segue o padrão tradicional do que se tem produzido em termos de filmes de terror na indústria ocidental. Uma produção de terror sem sustos? É quase absurdo propor isso em um mercado em que os longas são feitos em uma fórmula em que o choque explícito em construções de cenas e o abuso de personagens antagonistas, de tão “assustadores”, se tornam caricatos. “Delírio” possui classificação indicativa de 12 anos, justamente por não estar nos quesitos nesse terreno de explícitos, mas esse fato parece subjugar “Delírio”. Não é porque o filme não é explícito, que ele não possui uma série de outros fatores que o façam poderosamente perturbador no quesito psicológico.

Simbolicamente, o filme traz uma relação forte entre gerações de mulheres. A avó, doente e sem condições de viver só; a mãe, sobrecarregada; e a filha, deslocada e em negação. A avó se relaciona com sua neta, vendo fotografias da família e conversando, confundindo sua neta repetidamente com sua filha. Elisa segura as pontas da família, pois precisa cuidar de sua mãe e de sua filha. Masha se arrasta pela casa, começa se não aceitasse que estivesse ali, lendo histórias de terror e não aceitando a morte de seu pai. Este é o principal elo do roteiro, que acertadamente traz uma proposta não simplificada.

Quanto à duração, “Delírio” foi econômico em sua produção. Em um longa-metragem não é comum um longa ter uma duração de menos de 90 minutos, neste filme a duração foi de 74 minutos. Não que isso seja imediatamente um defeito, pois essa austeridade pode significar um aumento de concentração da trama, gerando algo “compacto”, mas intenso. Neste caso, algumas coisas não foram resolvidas na obra, o que poderia ser explorado com mais dedicação se pudéssemos ter mais tempo para remover as pontas soltas e não deixar a sensação de inconclusão.

“Delírio” nos mostra uma boa proposta de filme, sem exageros, mesmo com pontas soltas se mostra redondo e ousa em seguir em contramão do padrão da indústria. E, além disso, possuindo a mesma importância do que esses fatores, foi escrito e dirigido por uma mulher, com elenco principal completamente feminino e com questões que atravessam a identidade feminina, da infância à velhice. O texto aparece com mais importância do que uma imagem forçada; ele é natural. Produções como essa merecem destaque no cenário do cinema internacional.

Por Hélio Mesquita.