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Bolero: A Melodia Eterna Bolero: A Melodia Eterna

Bolero: A Melodia Eterna – a dor e o desejo por trás da criação

Ravel (Raphael Personnaz) é um jovem pianista promissor que, ao participar de uma competição importante, é eliminado logo na primeira seleção. Frustrado, duas décadas depois, ele alcança reconhecimento como regente e pianista, embora seu foco esteja exclusivamente na técnica musical. Suas composições refletem esse apego formal, revelando bloqueios criativos profundos e o afastamento de experiências humanas mais intensas.

Em um romance platônico com Misia (Dona Tilier), irmã de seu grande amigo Cipa (Vincent Perez), Ravel evita se entregar aos sentimentos, mantendo uma relação idealizada e não carnal. A chegada de Ida (Jeanne Balibar), uma consagrada dançarina que o convida a compor para seu novo espetáculo de balé, confronta-o com seus bloqueios afetivos e criativos. É a partir desse embate — entre a rigidez da técnica e a fluidez do desejo — que Ravel, ao abrir-se para o mundo ao seu redor e para as mudanças dos “novos tempos”, encontra inspiração para compor sua obra-prima atemporal: Bolero.

A abertura do filme nos brinda com uma bela montagem de cenas em que Bolero é tocada em diversos estilos e partes do mundo, evidenciando o impacto global e atemporal da composição. No entanto, “Bolero, a Melodia Eterna” vai além da música: trata do processo criativo em si.

A obra mostra que criar não se resume à espera por uma inspiração mística, mas resulta de um conjunto de fatores — ambientes, relações, conflitos internos. Nesse sentido, o filme revela um olhar mais psicanalítico da arte, aproximando-se do conceito de sublimação: a transformação da dor e dos desejos reprimidos em criação.

Crédito da imagem: Divulgação

Vemos, assim, o artista como alguém que funde sua identidade com sua arte. Quando impossibilitado de criar, Ravel sente-se perdido, incompleto. Mesmo sendo considerado, no passado, um possível marido para Misia — e ainda existindo sentimentos mútuos — ele escolhe o afastamento, por apego a uma moral pessoal que, paradoxalmente, o impede de viver e de compor com plenitude.

Essa rigidez também aparece quando Ravel se incomoda ao ver Bolero encenado por Ida com conotação sexual. A recusa em aceitar essa interpretação mais sensual da obra o desequilibra, revelando o quanto seu recato moral e sua repressão o aprisionam. Nem mesmo com prostitutas — que procura secretamente em um bordel, tentando reviver momentos com Misia — ele consegue se libertar.

No fim das contas, o filme trata menos da fama da música e mais da construção interna do artista. Com personagens bem desenvolvidos e uma direção de arte impecável — no figurino, na decoração e na ambientação da alta sociedade francesa — “Bolero, a Melodia Eterna” é uma obra delicada e contemplativa sobre desejo, bloqueio, criação e identidade. Uma produção da Mares Filmes, o longa está em cartaz nos cinemas brasileiros e vale a pena ser conferido por quem deseja ver mais do que uma biografia: um mergulho sensível no fazer artístico.

Por Hélio Mesquita.