Contando a história de Moisés, um garoto que saiu da pobreza no estado de Minas Gerais até se tornar um dos pianistas mais proeminentes do mundo, 3 Atos de Moisés é um documentário dirigido por Eduardo Boccaletti. O filme é dividido em três atos dramáticos que exibem sua vida pregressa no Brasil e sua estadia na Alemanha como concertista e professor de piano. Sendo autodidata até os 14 anos, Moisés enfrentou, além da pobreza, o racismo e a homofobia. Atualmente, é mestre em piano pela Universidade de Bremen e fala sete idiomas.
A história de Moisés passa por muitas dificuldades; ele morava em uma casa minúscula com seus pais analfabetos e sua irmã, que tem necessidades especiais. Desde criança, tinha um enorme interesse pelos sons e por como eles podiam ser extraídos do ambiente. Interagindo com garrafas de água e com um piano imaginário que, com sua criatividade, projetava na mesa de trabalho de seu avô, Moisés criou um universo próprio, musical e afetivo. Na mesma casa, atualmente, ainda está seu primeiro piano, estragado pelo tempo; mas ele ainda pensa em restaurá-lo e doá-lo a outra pessoa que precise.

A jornada em “3 Atos de Moisés”
Para conseguir tocar piano, que sempre fora seu sonho, Moisés chegou a praticar escondido em uma escola de música. Lá, fez amizade com a equipe de limpeza e com o porteiro; com a ajuda deles e de um amigo que lhe confiou uma chave da sala, ensaiava discretamente em horários de pouco movimento. Futuramente, ele buscou aprender piano na faculdade local.
Seu professor, em entrevista, comenta que, quando fez o teste com Moisés para admissão como aluno, percebeu que, enquanto ele tocava “Tico-Tico no Fubá”, apresentava problemas com o tempo e com notas erradas. Se fosse qualquer outro, ele afirma, não o admitiria; mas, como sabia de sua realidade e de seu esforço, deu-lhe uma chance para que pudesse aprender. O que resultou em uma bolsa de estudos por um semestre tornou-se uma bolsa por cinco anos.
Na Alemanha, onde atualmente mora, ele possui uma rede de parceiros e alunos que regularmente atende em residências, trabalhando com afinco e dedicação para educar cada um deles. No país, há um teatro que ele admira e anseia por tocar. Ao fim do documentário, Moisés consegue, enfim, realizar esse sonho.
O Legado de “3 Atos de Moisés”: da antítese ao “self-made man”
“3 Atos de Moisés” é a antítese do mito do “self-made man”. Literalmente, a expressão quer dizer “o homem que fez a si mesmo”, sem precisar de ajuda externa ou se amparar em outras pessoas. A expressão foi cunhada por um dos pais da pátria americana, Benjamin Franklin, que representava o ethos do empreendedorismo americano: “Quem tem caráter, trabalha, trabalha e trabalha, vence”.
Esse não é o caso de Moisés; a condição sem a qual ele não obteria sucesso era a de possuir uma forte rede de conexões e de amparo, formada por amigos e professores – que também se tornaram amigos –, levando-o a ter oportunidades inimagináveis na situação social em que se encontrava, de pobreza e sem condições de bancar seus estudos, que eram dispendiosos e exclusivos a poucos.
Essa afirmativa não é uma forma de diminuir os esforços de Moisés; ao contrário, o objetivo é exaltá-los. Sem sua iniciativa, nada teria acontecido em sua carreira, e ele não se teria tornado um expoente provindo do Brasil, ganhando reconhecimento na Europa. Mas o que é preciso considerar é que, se a todos os garotos sonhadores em dificuldades financeiras e sociais fossem oferecidas oportunidades para trilhar um caminho inspirador como o de Moisés, talvez a situação para alguns jovens não tivesse de ser tão precarizada, e tivéssemos prosperidade em várias áreas científicas e artísticas das quais tanto precisamos.
“3 Atos de Moisés” chega aos cinemas no dia 4 de dezembro.
Por Hélio Mesquita.
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