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Após muita dor de cabeça, Coyote vs. Acme terá lançamento nos cinemas em 2026 Após muita dor de cabeça, Coyote vs. Acme terá lançamento nos cinemas em 2026

Coyote vs. Acme: a comédia que venceu o engavetamento da Warner

Uma sátira judicial com os Looney Tunes

Coyote vs. Acme tem uma história curiosa. Gravado há mais de quatro anos, o longa foi engavetado pela Warner Bros. após uma troca de gestão. A decisão provocou grande repercussão, principalmente porque as sessões-teste apontavam para uma recepção extremamente positiva, mas os executivos permaneceram quase irredutíveis. Em determinado momento, um estúdio menor adquiriu os direitos de distribuição e, depois de muitos anos, “Coyote vs. Acme” finalmente chega aos cinemas. É um daqueles raros casos em que o ímpeto criativo conseguiu vencer a ganância corporativa.

A trama acompanha Wile E. Coyote, que decide processar a ACME após anos de acidentes causados por seus produtos defeituosos. Com a ajuda de um advogado vivido por Will Forte, ele enfrenta o representante da companhia, interpretado por John Cena. A obra adapta o conto satírico “Coyote V. Acme”, de Ian Frazier, publicado na The New Yorker em 1990, que imaginava o Coyote levando juridicamente a sério todos os absurdos clássicos dos desenhos.

Assim como o texto original extrai sua comédia de uma linguagem oriunda do mundo real, o longa brinca, já nos primeiros minutos, com as convenções de um clássico drama de tribunal. Essas quebras de expectativa são fundamentais para seu tom cômico, que aposta constantemente em satirizar a realidade e nos fazer enxergar os tradicionais personagens dos Looney Tunes por outra perspectiva.

Seria muito cômodo para o roteiro de Samy Burch desconstruir essas figuras para encaixá-las no humor hiperestimulante de nossa época. Em vez disso, a produção coloca em rota de colisão dois tipos distintos de comédia, vindos de períodos diferentes, e dessa combinação surgem novas piadas sagazes e inventivas. É como se o choque geracional criasse uma convergência.

Coyote vs. Acme: humor, crítica corporativa e construção de universo

A obra acerta em cheio tanto na comédia física quanto na situacional e permanece fiel às personalidades e características de seus protagonistas. Às vezes, uma simples gag também provoca reflexões sobre como figuras criadas em outras décadas são interpretadas pelo olhar contemporâneo. Os integrantes clássicos dos Looney Tunes, assim como nas animações originais, encarnam versões de si mesmos que passam a servir à narrativa judicial construída pelo roteiro, com destaque para a excelente cena envolvendo o Patolino e um trauma.

Há ainda boas piadas metalinguísticas e, em diversos momentos, parece existir uma equivalência deliberada entre a ACME retratada na história e a própria Warner Bros., especialmente quando a sátira se aproxima de práticas corporativas predatórias.

Uma das melhores sacadas está nos letreiros de “baseado em uma história real” que aparecem na introdução e no desfecho, além da utilização bastante consciente de recursos típicos do gênero de tribunal. Esses códigos não surgem apenas como referência ou paródia: eles são incorporados organicamente à narrativa. Ao mesmo tempo em que funciona como comédia, a história também trata com seriedade a jornada emocional de seus protagonistas.

O universo apresentado também é muito bem construído. É por meio da própria narrativa que o público compreende as regras daquele mundo e a maneira como a ACME afeta diretamente a vida dos cartoons. Sem esse worldbuilding, dificilmente a história teria o mesmo peso emocional. Essa construção permite que a audiência permaneça envolvida durante quase duas horas de uma comédia muitas vezes infantil. Seu principal trunfo está justamente aí: existe uma história capaz de gerar investimento emocional e nos deixar abertos a tudo o que a proposta oferece.

Direção e fotografia: méritos e limitações

Dave Green também demonstra mérito na direção de elenco e, principalmente, na maneira como integra os atores humanos organicamente à mise-en-scène. As interações com os personagens animados funcionam bem, sobretudo pelo trabalho com os olhares, que raramente parecem artificiais. Por outro lado, a realização perde força quando precisa apresentar algo visualmente mais marcante no mundo “real”. A fotografia aposta em uma tonalidade dessaturada e pouco vibrante, dando a impressão de que boa parte da inventividade visual foi reservada aos segmentos animados.

“Coyote vs. Acme” é uma ótima surpresa em meio a tantas produções esquecíveis derivadas de franquias famosas. Mesmo sem ser revolucionário, executa muito bem aquilo que se propõe e impressiona pela quantidade de qualidades escondidas em uma obra que, por muito pouco, não viu a luz do dia.

Por Tiago Maia.