Com a chegada de Os Malditos (The Damned) ao catálogo da HBO Max, o terror folclórico islandês passou a alcançar um público mais amplo — e, junto com ele, surgiram dúvidas sobre o desfecho do longa dirigido por Thordur Palsson. Ambientado no século XIX, em uma região isolada próxima ao Círculo Polar Ártico, o filme constrói sua tensão a partir do medo psicológico, da culpa coletiva e da deterioração mental causada pela fome e pelo isolamento. A seguir, explicamos o final de Os Malditos, revisitando os principais acontecimentos da trama e detalhando o significado do encerramento.
Resumo da trama de Os Malditos
A história acompanha Eva (Odessa Young), viúva e proprietária de uma estação de pesca herdada do marido, morto no mar na temporada anterior. Ela lidera um pequeno grupo de pescadores que enfrenta um inverno rigoroso, com suprimentos escassos e poucas chances de sobrevivência até a próxima estação. A situação se agrava quando os homens são obrigados a consumir até mesmo as iscas destinadas à pesca.
O ponto de ruptura ocorre quando um grande navio mercante estrangeiro colide contra formações rochosas conhecidas como “Os Dentes”. Alguns tripulantes defendem uma tentativa de resgate, mas Ragnar (Rory McCann) argumenta que a missão colocaria todos em risco, já que o grupo mal consegue se manter vivo. Diante da pressão, Eva toma a decisão de não ajudar os sobreviventes.
No dia seguinte, restos do naufrágio começam a surgir na praia, incluindo um barril de carne ainda em condições de consumo. Eva e Ragnar decidem retornar ao local para buscar mais suprimentos, mas encontram sobreviventes bascos, que imploram por ajuda em um idioma que o grupo não compreende. A situação se transforma em confronto: Ragnar cai no mar e morre, enquanto Daniel (Joe Cole) mata um dos sobreviventes para proteger Eva.
Os corpos das vítimas aparecem posteriormente na praia. A cozinheira Helga (Siobhan Finneran) alerta sobre a lenda dos draugr, mortos-vivos do folclore nórdico que retornam quando rituais funerários não são respeitados. Ela recomenda amarrar os corpos e girar os caixões, mas seus avisos são ignorados.
A partir desse momento, o filme Os Malditos passa a trabalhar a dúvida: algo sobrenatural está acontecendo ou tudo é fruto do medo e da culpa? Eva e os demais começam a ter visões, pesadelos e comportamentos erráticos. Peixes desaparecem, a comida é sabotada e um dos caixões aparece vazio, reforçando a crença de que um draugr está à solta.
A paranoia se espalha rapidamente. Hakon, um dos pescadores, adoece, entra em delírio e acaba morto após atacar Daniel. Mais tarde, o próprio Daniel perde o controle, agride Eva e tira a própria vida. A comunidade se dissolve, não apenas pela ameaça externa, mas pelo colapso interno provocado pelo medo.

O que acontece no final de Os Malditos?
No ato final, restam apenas Eva e dois homens. Convencidos de que precisam fugir, eles preparam o barco para deixar a estação de pesca. Antes da partida, Eva percebe a presença de um intruso no local. Ela o confronta e, em uma cena violenta, acredita estar enfrentando um draugr. Eva atira, incendeia a estação e foge, convencida de que eliminou a ameaça.
Ao retornar ao barco, ela conta aos sobreviventes que matou a criatura e que tudo finalmente acabou. O filme, porém, retorna à cena sob outra perspectiva e revela a verdade.
O suposto monstro era, na realidade, um dos sobreviventes bascos do naufrágio. Ele havia sido enterrado vivo, conseguiu escapar do caixão — o mesmo encontrado vazio — e passou a sabotar a estação como forma de vingança. Quando confronta Eva, o homem fala em seu idioma, mas as legendas permitem que o público compreenda suas palavras.
Ele explica que perdeu o irmão no naufrágio, pede desculpas pelos atos cometidos e implora para usar o barco para fugir. Como último gesto, oferece a Eva um relógio de bolso, possivelmente pertencente ao irmão morto — o mesmo objeto que Eva havia ordenado que fosse devolvido ao corpo encontrado na praia. O relógio surge como símbolo de humanidade, empatia e arrependimento.
Mesmo diante desse apelo, Eva atira no homem e o incendeia, condenando-o à morte. A expressão de culpa em seu rosto deixa claro que, naquele momento, ela entende o peso real de suas escolhas.

O significado do final explicado de Os Malditos
O desfecho de Os Malditos deixa claro que não havia um monstro sobrenatural aterrorizando a comunidade. O verdadeiro horror nasce da fome, do isolamento extremo e, principalmente, da culpa coletiva por ter abandonado os sobreviventes do naufrágio à própria sorte.
A crença nos draugr funciona como uma projeção psicológica. À medida que os personagens se veem confrontados com suas decisões, a mente cria uma ameaça externa para justificar o caos interno. O medo se transforma em paranoia, e a paranoia leva à violência. Um a um, os membros do grupo são destruídos, não por uma entidade mística, mas por suas próprias ações.
A frase dita por Daniel — “os mortos são muito menos perigosos do que os vivos” — resume o tema central do filme. O perigo real nunca veio do além, mas da incapacidade dos personagens de lidar com suas escolhas morais em uma situação extrema.
O relógio entregue pelo sobrevivente basco no final simboliza essa humanidade perdida. Eva reconhece o gesto, mas já é tarde demais para voltar atrás. Ao matá-lo, ela garante a própria sobrevivência física, mas carrega consigo o peso definitivo da culpa.
Assim, Os Malditos encerra sua narrativa como um estudo sobre o colapso humano diante do medo, reforçando que, em situações-limite, o maior inimigo raramente é sobrenatural — ele nasce dentro de nós.
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