Nuremberg é um dos mais novos dramas históricos sobre a Segunda Guerra Mundial. Com a direção e roteiro de James Vanderbilt, o projeto tem uma missão ambiciosa: não apenas reconstituir os icônicos julgamentos que condenaram os líderes nazistas, mas também estabelecer uma ponte incômoda entre o passado e o presente. Estrelado por Russell Crowe como Hermann Göring, Michael Shannon como o promotor Robert H. Jackson e Rami Malek como o psiquiatra Douglas Kelley, o filme se despede do espectador com um final tão sombrio quanto reflexivo, e repleto de ironias trágicas da vida real.
O veredito do Tribunal e a fuga de Göring
Nos momentos finais do tribunal, Jackson e o promotor britânico David Maxwell Fyfe (Richard E. Grant) confrontam Göring no banco dos réus. A pergunta é direta: mesmo após saber da magnitude do Holocausto, ele ainda seguiria as ordens de Hitler? A resposta evasiva de Göring sela seu destino. O Tribunal Militar Internacional o condena à morte por enforcamento.
No entanto, o desfecho não é o que os carrascos esperavam. Em sua cela, horas antes da execução marcada para 15 de outubro de 1946, Göring engole uma cápsula de cianeto e morre por suicídio. A cena é rápida, quase discreta, mas seu impacto reverbera. Nos Estados Unidos, Kelley lê a notícia e murmura: “Ele escapou”. A frase resume a frustração de quem dedicou meses a tentar entender (e punir) a mente de um dos maiores criminosos da história.
Kelley, o álcool e o alerta profético
O filme não termina com o enforcamento dos condenados. Em vez disso, avança alguns anos. Vemos Kelley promovendo seu livro “22 Cells in Nuremberg” em uma entrevista de rádio, visivelmente embriagado. Sua embriaguez, no entanto, lhe dá uma estranha lucidez. Ele alerta os ouvintes: “Há pessoas como os nazistas em todos os países do mundo hoje, incluindo os Estados Unidos”. Ele descreve o mecanismo do populismo autoritário: “Eles alimentam o ódio. É o que Hitler e Göring fizeram. É um manual. E se você acha que da próxima vez reconheceremos porque eles estarão usando uniformes assustadores, você está completamente louco”.
O diretor James Vanderbilt explicou a escolha: “Essas eram as opiniões dele, e não eram opiniões populares. As pessoas não queriam pensar sobre isso. Saindo de uma guerra tão longa e exaustiva, todos estavam prontos para virar a página”. O filme, portanto, não é apenas sobre o passado; é um espelho incômodo para o presente.

Os epílogos reais: suicídios e tragédias pessoais
O epílogo do filme descreve o destino trágico de seus personagens reais:
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Hermann Göring morreu por suicídio com cianeto em 15 de outubro de 1946, duas horas antes de seu enforcamento.
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Douglas Kelley, o psiquiatra que estudou os nazistas, morreu da mesma forma que Göring: engolindo uma cápsula de cianeto. uma das que ele mesmo trouxera de Nuremberg como recordação. Após uma longa batalha contra a depressão, Kelley tirou a própria vida em 1º de janeiro de 1958, aos 45 anos.
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Robert H. Jackson retornou à Suprema Corte dos EUA, onde serviu até sua morte por ataque cardíaco em 1954, aos 62 anos.
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Howard “Howie” Triest (interpretado por Leo Woodall), o tradutor judeu que perdeu os pais no Holocausto, sobreviveu e tornou-se um defensor da memória do Holocausto. Morreu em 2016, aos 93 anos.

O legado de “Nuremberg” ainda assombra
O final de “Nuremberg” se recusa a oferecer um consolo fácil. Göring não é executado publicamente; Kelley, o “herói” que tentou decifrar a mente do mal, sucumbe ao mesmo veneno. E o alerta sobre a banalidade do autoritário: “eles não usam uniformes assustadores”; é um lembrete de que o fascismo pode florescer em qualquer democracia desatenta.
Vanderbilt optou por terminar seu filme com uma imagem silenciosa: Kelley em sua mesa, cercado por anotações, enquanto o rádio ecoa estática. A pergunta que fica é inquietante: será que aprendemos alguma coisa? Ou estamos fadados a repetir os erros do passado, simplesmente porque nos recusamos a reconhecer os sinais?
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