A versão de Frankenstein dirigida por Guillermo del Toro, que estreia em 7 de novembro de 2025 na Netflix, oferece uma leitura visualmente marcante e emocionalmente sombria do romance de Mary Shelley. Embora mantenha o espírito da obra original, o filme altera algumas relações e desfechos para reforçar os temas de culpa, criação e humanidade que sempre fascinaram o cineasta. No centro de tudo está a transformação de Victor Frankenstein — de gênio obcecado a vilão de sua própria história — e a redenção silenciosa de sua criatura. Confira o final explicado:
Victor Frankenstein: o verdadeiro monstro
Ao longo do filme, Del Toro destaca a arrogância e a autodestruição de Victor (Oscar Isaac). Mesmo em suas lembranças, o cientista é retratado como alguém frio e impaciente, incapaz de assumir responsabilidade por seus atos. Ele justifica suas ações em nome da ciência, mas, no fundo, busca apenas vencer a morte e provar sua superioridade. A narrativa enfatiza esse comportamento egocêntrico, mostrando como Victor manipula e mente para proteger sua reputação, mesmo após as mortes de pessoas próximas, como o benfeitor Henrich (Christoph Waltz) e sua noiva Elizabeth (Mia Goth).
A virada ocorre após a morte de seu irmão William, quando este o acusa, em suas últimas palavras, de ser o verdadeiro monstro da família Frankenstein. É apenas nesse ponto que Victor reconhece o que fez — embora tarde demais. Ele persegue sua criação até o Ártico, determinado a destruí-la, mas o confronto final se transforma em um espelho moral. Ao morrer, Victor implora perdão à criatura, que o concede, evidenciando quem realmente compreendeu o significado da humanidade.
O vínculo trágico entre Elizabeth e a criatura
Um dos elementos mais marcantes da versão de Del Toro é a relação entre Elizabeth e a criatura (Jacob Elordi). Desde o primeiro encontro, há empatia e curiosidade entre eles. Elizabeth vê no ser reanimado algo que Victor jamais enxergou: uma alma. É por meio dela que a criatura começa a se compreender como alguém capaz de sentir e aprender.
Mas esse vínculo desperta o ciúme de Victor, que se sente traído tanto pela criatura quanto por Elizabeth. Quando o monstro finalmente pronuncia o nome “Elizabeth” em vez de “Victor”, como prova de sua evolução, o cientista reage com fúria e tenta destruí-lo. O gesto simboliza a recusa de Victor em aceitar que sua criação possa amar e ser amada.
A tragédia culmina na noite de núpcias de Elizabeth. A criatura tenta se aproximar dela, mas é surpreendida por Victor, que dispara sua arma. O tiro atinge Elizabeth mortalmente. Antes de morrer, ela confessa que nunca se sentiu parte daquele mundo e pede à criatura que viva por ambos. A cena reforça o isolamento absoluto do monstro: ele é imortal, mas condenado a carregar para sempre a dor da perda.

O anjo da morte e o simbolismo das visões de Victor
Um dos motivos visuais mais enigmáticos do filme é a aparição constante do anjo flamejante nos sonhos de Victor. A figura deriva de uma estátua que ele possuía na infância, associada à fé que abandonou ao se entregar totalmente à ciência. No início, o anjo representa conforto e proteção, mas, à medida que Victor mergulha em sua obsessão, o símbolo se transforma.
Nas últimas visões, o anjo retira sua máscara e revela um rosto esquelético, cercado por chamas — uma manifestação do anjo da morte. O fogo ao redor da figura prenuncia a destruição do laboratório de Victor, consumido pelas mesmas chamas que um dia representaram seu impulso criador. O anjo, portanto, pode ser interpretado de duas maneiras: como a personificação da morte que acompanha Victor desde o início, ou como reflexo de sua própria ambição corrompida.
Cada aparição coincide com uma perda significativa — a morte da mãe, de Henrich, de Elizabeth e, por fim, de Victor. Assim, o anjo atua como símbolo cíclico da destruição causada pela arrogância humana. No fim, ele deixa de ser um guia espiritual para se tornar a projeção da culpa que persegue o cientista até sua ruína.
Como o filme altera o final do livro
O desfecho de Frankenstein mantém a estrutura do romance de Mary Shelley, mas modifica suas implicações morais. Tanto no livro quanto no filme, Victor narra sua história ao capitão de um navio preso no gelo do Ártico antes de morrer. Porém, enquanto o romance termina com Victor ainda dominado pela ambição, Del Toro o mostra reconhecendo seus erros e pedindo perdão à criatura.
A criatura de Frankenstein, por sua vez, não busca mais a morte. Diferente do texto original, em que promete se suicidar após perder o criador, aqui ela decide continuar viva. A conversa final entre os dois é marcada por arrependimento e aceitação. Victor pede à criatura que encontre sentido na existência, ainda que sem ele. O monstro, tocado pela súplica, promete tentar — encerrando o filme com uma nota ambígua de esperança e melancolia.
Del Toro adiciona ainda uma diferença essencial: a imortalidade literal da criatura. Fruto de experimentos avançados de regeneração, ela possui um fator de cura que impede sua morte natural. Essa escolha reforça o tema do castigo eterno — um ser condenado a sobreviver ao próprio criador e testemunhar o fim de tudo o que amava.

O final explicado de Frankenstein, de Guillermo del Toro
O Frankenstein de Del Toro não é apenas uma adaptação do clássico, mas uma reflexão sobre os limites da humanidade e o preço da criação. Ao transformar Victor em um espelho dos piores impulsos humanos — arrogância, ciúme e negação da culpa —, o diretor questiona a noção de progresso sem empatia. Sua criatura, por outro lado, representa o oposto: nasce monstruosa, mas se torna mais humana à medida que sofre.
Outros personagens reforçam essa dualidade. Leopold Frankenstein, o pai abusivo de Victor, simboliza a origem do ciclo de violência e controle. Henrich, o benfeitor doente que financia os experimentos em busca da própria cura, encarna a exploração egoísta da ciência. Já o velho cego que acolhe a criatura ensina-lhe a compaixão e o valor da linguagem — até morrer de forma serena, deixando uma lição que contrasta com as mortes violentas dos demais.
O final de Frankenstein mostra que, em última instância, o verdadeiro horror não está nas cicatrizes ou na imortalidade da criatura, mas nas escolhas humanas que a moldaram. Del Toro transforma o mito em uma parábola sobre responsabilidade e empatia, encerrando seu filme não com a destruição do monstro, mas com sua sobrevivência — uma existência solitária, porém consciente.
Ao amanhecer, a criatura observa o corpo de Victor sendo levado pelo gelo. Em silêncio, ela toca o rosto congelado do criador e o cobre com o próprio casaco, antes de seguir em direção ao horizonte. É o gesto final de um ser que, rejeitado pelo mundo, aprendeu sozinho o que significa ser humano.
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