É algo natural ver a indústria de videogames pisar em ovos ao abordar temas politicamente carregados, mesmo quando a moralidade é cristalina. A recente notícia sobre o cancelamento de um projeto de Assassin’s Creed — que supostamente colocaria um ex-escravo negro para lutar contra membros da Ku Klux Klan e, talvez, até nazistas na América pós-Guerra Civil — sob o pretexto de evitar “controvérsias” e de que a situação política dos EUA estaria “instável demais” é um sinal preocupante de autocensura corporativa — até covarde, eu diria. Em um momento onde narrativas de coragem e oposição ao ódio são aparentemente vistas como um risco de marketing, nunca foi tão urgente o retorno de uma franquia que não tem medo de apontar o dedo para o mal: Wolfenstein.
Wolfenstein pega o fascismo e rasga na bala
A saga “Wolfenstein” não é apenas um marco no gênero de tiro em primeira pessoa (FPS), popularizado com “Wolfenstein 3D” lá em 1992. A premissa principal de quase todos os jogos, desde o “Castle Wolfenstein” de 1981, é clara: o jogador, quase sempre na pele de B.J. Blazkowicz, deve se infiltrar em bases, castelos e complexos nazistas para frustrar seus planos de dominação mundial.
A narrativa da franquia, especialmente na reinvenção moderna iniciada por “The New Order” (2014) e seguida por “The New Colossus” (2017), mergulha em uma distopia de realidade alternativa onde os nazistas venceram a Segunda Guerra Mundial, usando sua avançada tecnologia e o ocultismo. Nessa realidade sombria, a ideologia nazista triunfou e dominou o planeta, sendo retratada em toda a sua brutalidade e absurdo científico.
“Wolfenstein” é visceral. É a representação de um mundo subjugado pela tirania, onde o racismo, a eugenia e o militarismo extremo se tornaram a norma. O jogador não está apenas atirando em inimigos genéricos; está desmantelando um sistema que oprime e mata sem nenhum puder, enfrentando diretamente os símbolos e os arquitetos do ódio. Blazkowicz, um dos ícones da Resistência, é um homem determinado a matar nazistas (e nazistas robôs, zumbis ou super-soldados) até que a suástica seja banida da face da Terra. A mensagem é intencional, explícita e radicalmente anti-fascista. É essa postura ousada, esse “não-pedido-de-desculpas” por combater o mal fascista, que torna “Wolfenstein” tão vital hoje. E por isso temos o melhor momento para que a desenvolvedora MachineGames lance um novo jogo da saga.

O melhor momento para matar nazistas
A Ubisoft ter cancelado um jogo com a KKK como antagonista por “medo de controvérsia” é sintomático de uma tendência perigosa, tratando tudo como um mero tópico “muito político” para o entretenimento. Devemos lembrar que, por mais que videogame seja entretenimento, ele também é político, como bem comenta o jornalista de games Henrique Sampaio, ex-Overloadr, em seu artigo: “A arte e a mídia, enquanto produtos da criatividade e expressão de indivíduos, inevitavelmente transmitem ideias, mensagens e valores. De uma forma ou outra, consciente ou inconscientemente, a gente deposita nossa visão de mundo naquilo que a gente produz, especialmente se o que a gente produz envolve criatividade, comunicação e expressão. Arte é feita por pessoas e pessoas possuem diferentes perspectivas sobre o mundo no qual estão inseridas.”
No entanto, essa hesitação da Ubisoft ocorre em um momento em que a ascensão global (e no Brasil também!) de grupos neonazistas, supremacistas brancos e movimentos de extrema-direita é um fato notório e preocupante. O discurso de ódio se normaliza nas redes sociais, e a desinformação alimenta ideologias de extrema-direita que podam atrapalham a sociedade em avançar em temas importantes, como saúde, educação, desenvolvimento tecnológico e assim por diante.
É nesse panorama que um novo jogo da franquia “Wolfenstein” seria mais do que um FPS divertido, mas um possível contraponto na atual indústria, reafirmando que o combate ao nazismo precisa ser vivenciado pela “juventude” mais uma vez. Retornar com um personagem lutando pela liberdade em um mundo dominado é uma metáfora poderosa para a batalha ideológica que nossas democracias enfrentam hoje contra o extremismo.
Que a Bethesda e a MachineGames entendam o recado: está na hora de retornar para matar nazistas. Enquanto, isso uma série live-action foi anunciada pela Amazon, com os produtores da série de “Fallout” envolvidos.
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