Natalia Cohan de Kohen (Mendoza, 1919 – Buenos Aires, 8 de outubro de 2022), ou Natalia Kohen, foi uma artista plástica, escritora, mecenas e colecionadora argentina cuja trajetória adquiriu dimensões quase míticas. De classe alta e amplamente envolvida no meio cultural, sua vida ganhou repercussão internacional não apenas por sua obra, mas sobretudo por ter sido internada contra sua vontade aos 87 anos — um caso que suscitou discussões sobre idade, liberdade e poder familiar, inspirando o recente filme 27 Noites, disponível na Netflix.
Arte, letras e apoio à cultura
Formada em Letras, Kohen também dedicou-se à pintura, tendo estudado em Buenos Aires e em Londres — entre outros, no British Museum. Autora de diversos livros de poemas e contos — como Cortes transversales, Todas las máscaras e El collar —, ela dirigiu ainda a Fundação Argentia de Ciência e Cultura, exercendo papel de mecenas para artistas emergentes. Sua coleção de arte latino-americana era reconhecida, e ela mesma expôs em várias ocasiões.
A crise: internação e acusações
Em 2005, quando tinha cerca de 87 anos, enquanto já viúva, Kohen propôs financiar um centro cultural no Paseo de la Infanta junto ao arquiteto Clorindo Testa — iniciativa que segundo suas filhas indicaria “descontrole” financeiro. As filhas tomaram a decisão de interná-la em uma clínica de saúde mental, alegando demência frontotemporal, baseada em laudos médicos conduzidos pelo neurólogo Facundo Manes, atualmente deputado argentino.

Natalia afirmou publicamente:
“Facundo Manes me endilgó uma enfermedad… pero yo estaba sana.”
Segundo a apuração jornalística, os exames apresentados ao tribunal eram questionáveis — não havia tomografias adequadas, e uma das médicas afirmou nunca ter visto a paciente. A internação gerou grande comoção no meio artístico e cultural, mobilizando amigos e intelectuais que denunciaram a situação como “internação da riqueza por suas filhas”.
O desfecho e os desdobramentos
Após mobilização e denúncia pública, Kohen conseguiu sair da clínica. O caso desencadeou debates legislativos e jurídicos sobre a tutela de idosos e a possibilidade de internação involuntária. Em 2006, ela teve sua capacidade judicial provisoriamente suspensa e foi nomeado um curador, porém conseguiu manter acesso aos seus bens e à vida externa.
A escritora e psicanalista Natalia Zito dedicou ao caso o livro Veintisiete noches (2021), retratando sua história sob personagens fictícios — uma artista idosa que luta contra acusações de demência e confisco de patrimônio. Posteriormente, o caso inspirou o filme 27 Noites (2025), de Daniel Hendler, disponível na Netflix.

Legado e significado
Natalia Kohen faleceu aos 103 anos, em 2022, cercada por amigos e colecionadores que a lembraram como “uma amiga generosa e presente” na cultura argentina. Sua vida traz à tona perguntas profundas: quem detém o poder de decidir sobre a autonomia de uma pessoa idosa? Em que momento o cuidado se confunde com controle? O que significa envelhecer com liberdade — especialmente para uma mulher que sempre fez diferente?
Sua história serve de alerta para o mundo contemporâneo: sob o rótulo de “vulnerabilidade”, pode-se ocultar interesses financeiros ou familiares. E, por outro lado, sob o rótulo de “excentricidade”, pode haver uma legítima expressão de liberdade que incomoda os que esperam conformismo.
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