A minissérie documental O Assassino do TikTok, disponível na Netflix, revisita um caso real que ganhou repercussão na Espanha após o desaparecimento da viajante Esther Estepa em 2023. A produção reconstrói os últimos passos da mulher de 42 anos e investiga a relação dela com José Jurado Montilla, um criador de conteúdo que publicava vídeos de viagens no TikTok.
O caso envolve mensagens suspeitas enviadas à família, um rastro digital deixado nas redes sociais e a revelação de que Montilla possuía um histórico criminal ligado a assassinatos cometidos décadas antes. A história se tornou um exemplo de como investigações modernas podem depender tanto de registros digitais quanto da persistência de familiares em busca de respostas.
Quem era Esther Estepa
Esther Estepa era natural de Sevilha, no sul da Espanha. Aos 42 anos, levava uma vida marcada por viagens frequentes e trabalhos temporários em diferentes cidades do país. Sem residência fixa, ela costumava se hospedar em hostels e buscar empregos sazonais durante suas jornadas.
Segundo relatos da família apresentados no documentário, Esther mantinha contato constante com a mãe, Josefa Pérez, conhecida como Pepa, e com a irmã, Raquel. Mesmo viajando sozinha, ela costumava atualizar os familiares sobre seu paradeiro por meio de mensagens e chamadas.

Foi durante uma estadia em um hostel na cidade de Alicante que Esther conheceu José Jurado Montilla. O homem, que se apresentava online como “Dynamite Montilla”, publicava vídeos de viagens para milhares de seguidores e dizia percorrer a Espanha registrando paisagens e trilhas.
O encontro com José Jurado Montilla
No dia 22 de agosto de 2023, Esther e Montilla decidiram viajar juntos. Os dois percorreram cerca de 37 quilômetros a pé entre Dénia e Gandía, em uma trilha popular da região mediterrânea.
Durante o percurso, Esther começou a sentir dores intensas na perna e uma forte dor de cabeça. Montilla entrou em contato com os serviços de emergência, e a viajante foi levada a um hospital local para atendimento médico. Após exames, ela recebeu alta por volta das 4h30 da manhã do dia seguinte.
Esse foi o último momento em que Esther foi vista oficialmente pelas autoridades.
As mensagens suspeitas
Cerca de treze horas depois de deixar o hospital, a mãe de Esther recebeu mensagens inesperadas pelo WhatsApp. No texto, a mulher afirmava estar sem dinheiro e dizia que planejava deixar a Espanha para iniciar uma nova vida em Buenos Aires, na Argentina.
A mensagem chamou atenção da família por vários motivos. Embora Esther tivesse um estilo de vida nômade, ela jamais havia mencionado a intenção de deixar o país de forma definitiva. Além disso, a mãe estranhou o tom da mensagem e o fato de a filha não responder a chamadas telefônicas.
Outro detalhe levantou suspeitas: Esther possuía dois cachorros de estimação, aos quais era muito ligada. A possibilidade de ela abandonar os animais sem aviso parecia improvável para os familiares.
Diante disso, a família começou a acreditar que as mensagens poderiam não ter sido escritas por ela.
A investigação do desaparecimento
O desaparecimento foi comunicado à polícia de Alicante em 26 de agosto de 2023. Inicialmente, investigadores consideraram a possibilidade de que Esther tivesse decidido romper contato com a família voluntariamente.
Os parentes, no entanto, insistiam que esse comportamento não condizia com o perfil da viajante. Durante a busca por respostas, eles também analisaram a possibilidade de envolvimento de um ex-companheiro, acusado por Esther de comportamento abusivo em 2022. Após verificação de álibis, essa linha de investigação foi descartada.
Pouco tempo depois, surgiu uma ligação inesperada.
O contato de Montilla com a família
Em 8 de setembro de 2023, Josefa recebeu um telefonema de um homem que afirmava ter estado com Esther pouco antes de seu desaparecimento. Era o próprio José Jurado Montilla.
Ele disse que havia acompanhado Esther até um centro de saúde em Gandía devido às dores na perna e afirmou que aquele teria sido o último momento em que a viu. Segundo Montilla, depois disso a viajante teria seguido seu caminho sozinha.
Embora o relato parecesse colaborar com a investigação, o nome do homem acabou chamando a atenção da família quando foi pesquisado na internet.
O passado criminoso de Montilla
Ao procurar informações sobre José Jurado Montilla, os familiares descobriram que ele possuía um histórico criminal significativo. Natural da região de Málaga, Montilla havia sido condenado por assassinatos cometidos na década de 1980.
Ele passou cerca de 28 anos na prisão após ser considerado culpado pela morte de quatro homens. Entre as vítimas estavam turistas estrangeiros e um ex-motorista ligado ao cantor espanhol Juanito Valderrama.
Após cumprir parte da pena, Montilla foi libertado em 2013. Anos depois, começou a produzir conteúdo de viagem nas redes sociais, registrando suas caminhadas e deslocamentos por diferentes regiões da Espanha.
Para a família de Esther, a descoberta levantou um alerta: a última pessoa vista com ela era um homem condenado por homicídio.
O caso ganha novos desdobramentos
A exposição nas redes sociais acabou desempenhando um papel importante na investigação. Os vídeos publicados por Montilla funcionaram como um registro público de seus deslocamentos e das cidades que visitava.
Com o tempo, autoridades passaram a analisar esses registros e compará-los com outros crimes ocorridos em áreas semelhantes.
Em 2024, Montilla foi preso por suspeita de envolvimento na morte de um jovem de 21 anos chamado David, assassinato ocorrido em 2022 em uma zona rural da província de Málaga. A prisão reacendeu o interesse no desaparecimento de Esther.

A descoberta dos restos mortais
Durante meses, não houve pistas concretas sobre o paradeiro da viajante. A situação mudou em fevereiro de 2024, quando um crânio humano foi encontrado em uma área de vegetação próxima a Gandía.
Exames forenses confirmaram, em junho daquele ano, que os restos pertenciam a Esther Estepa. Posteriormente, outros ossos foram encontrados na mesma região.
As análises indicaram uma fratura no crânio compatível com um golpe na cabeça, sugerindo que a morte ocorreu por agressão com objeto contundente.
A situação atual do caso
José Jurado Montilla nega ter matado Esther. No entanto, ele permanece sob custódia e responde formalmente por dois homicídios: o do estudante David e o da viajante desaparecida.
Os julgamentos ainda não possuem datas definitivas, e parte das informações da investigação permanece sob sigilo judicial. Esse também foi um dos motivos pelos quais autoridades espanholas não participaram diretamente do documentário da Netflix.
Enquanto o processo segue em andamento, a família de Esther continua lutando por justiça. Para eles, o dia 23 de agosto de 2023 — data das últimas mensagens enviadas — se tornou uma referência simbólica para lembrar a perda da viajante.
A série O Assassino do TikTok utiliza registros digitais, depoimentos e arquivos pessoais para reconstruir esse caso. O resultado é um retrato de como redes sociais, rastros online e investigações familiares podem se cruzar em uma história real marcada por desaparecimento, crime e busca por respostas.
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