Em 1999, Paul Thomas Anderson chocou o mundo do cinema com “Magnólia”, um épico não linear sobre pessoas quebradas, coincidências quase divinas e uma trilha sonora que arrepiava até a alma. Vinte e seis anos depois, o diretor segue sendo um realizador sem igual. Seu novo filme, Uma Batalha Após a Outra, é um épico político eletrizante e incrivelmente sensível. Se em “Magnólia”, “Boogie Nights” e “Hard Eight” Anderson bebia da fonte de Robert Altman, Scorsese e da Nova Hollywood, aqui sua inspiração é praticamente uma homenagem à obra de Sidney Lumet.
Premissa, direção, elenco e performances
Em “Uma Batalha Após a Outra”, Leonardo DiCaprio interpreta Bob Ferguson (ou Pat), um ex-revolucionário que sai da aposentadoria para enfrentar a missão mais importante de sua vida: resgatar a filha. Tendo vivido a juventude como integrante de um grupo de guerrilha, agora sua vida fracassada o atinge em cheio, repleta de frustrações e tristezas, quando o mais cruel de seus inimigos retorna após 16 anos desaparecido e sequestra a garota. Diante dessa urgência, ele reúne antigos companheiros e embarca em um implacável desafio em que precisará correr contra o tempo para salvar quem mais ama.
Com uma fotografia cheia de textura e uma luminosidade que remete a longas clássicos, “Uma Batalha Após a Outra” encanta desde o início. A montagem é enervante, embalada por músicas dos anos 70, período que o diretor abraça como estilo para o filme, mesmo se passando nos dias atuais. A introdução já nos apresenta personagens e situações fora do comum, com explosões, perseguições e uma filmagem elegante, mas crua. “Uma Batalha Após a Outra” é visceral, em que a tensão nunca desaparece.
Além da direção impecável, o elenco é um dos pontos altos. Paul Thomas Anderson, como de costume, consegue tirar de seus atores performances surpreendentes. Se ele já havia feito Adam Sandler brilhar em “Embriagado de Amor”, aqui eleva Sean Penn a um novo patamar. Como o coronel Steven J. Lockjaw, o antagonista é caricato, complexo, contraditório e, ao mesmo tempo, assustador pelo poder que exerce. Uma representação perfeita de um burocrata das forças armadas, que poderia facilmente ser transportada para a realidade brasileira e sua casta militar.
Em 2014, Paul Thomas Anderson lançou “Vício Inerente”, inspirado no romance de Thomas Pynchon. Lá, Joaquin Phoenix vive um personagem bonachão, em crise constante e adepto ao uso de drogas. Onze anos depois, o diretor repete a fórmula, mas em outro tom: DiCaprio interpreta um homem cheio de dramas, mas também carregado de tiradas cômicas que surpreendem. O resultado é um protagonista carismático e humano, que conduz emocionalmente o filme sem perder força entre humor e drama.
Já Leonardo DiCaprio entrega uma das melhores atuações de sua carreira. Seu “Pat” é um revolucionário ultrapassado que, nos padrões atuais, poderia ser confundido com um típico reacionário. A escrita de Anderson transforma esse dilema em combustível dramático e cômico, misturando riso e angústia em questão de segundos. A sala de cinema alterna entre gargalhadas e lágrimas, prova da força do texto e da atuação.

“Uma Batalha Após a Outra” com seus temas políticos e humor afiado
A carga política do filme é clara: ele simpatiza frontalmente com pautas de esquerda, retratando o cotidiano de um grupo armado que enfrenta tanto o sistema anti-imigração dos EUA quanto o próprio imperialismo. O vilão é um reflexo direto dos EUA pós-Donald Trump, um ataque mordaz à extrema-direita, ridicularizada até nos momentos mais cômicos.
Ainda assim, o diretor não deixa de explorar as contradições do próprio grupo protagonista. O humor, sempre certeiro, funciona como válvula de escape e ferramenta de crítica, equilibrando drama e sátira sem perder o fio da narrativa.
“Uma Batalha Após a Outra” é, sem dúvidas, um dos melhores trabalhos de Paul Thomas Anderson. Um filme de texto político afiado, situações genuinamente engraçadas e apelo emocional certeiro. Somado a isso, a virtude técnica é impecável: filmado em VistaVision, o longa captura espaços mais amplos no frame, reforçando a sensação de épico. É uma experiência feita para a maior e melhor tela possível — um cinema que provoca, diverte e emociona em igual medida.
Por Tiago Maia.
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