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Superman de James Gunn Superman de James Gunn

Superman de James Gunn é uma aposta no coração do herói

Depois de tantas adaptações, sucessos e fracassos, Superman, o maior ícone dos quadrinhos de super-heróis, está de volta aos cinemas — desta vez sob o olhar do cultuado James Gunn e inaugurando um novo universo cinematográfico.

Logo de cara, temos um início não convencional para um “filme de origem”. Mesmo sendo a quarta versão do personagem nas telonas, trata-se de um reboot, mas “Superman” já começa no meio de uma batalha, logo após o Azulão perder seu primeiro confronto. Apesar do dinamismo da cena inicial, que joga o espectador dentro da jornada, o começo é truncado, inesperado — e a montagem soa serializada e um tanto perdida nesse primeiro ato.

Clark, Lois e o novo Planeta Diário

Aos poucos, somos apresentados a versões repaginadas dos consagrados personagens do Planeta Diário. Além do tímido e doce Clark Kent (David Corenswet), temos Jimmy Olsen (Skyler Gisondo), Perry White (Wendell Pierce) e, claro, a espetacular Lois Lane, interpretada com brilhantismo por Rachel Brosnahan. De longe, é a melhor personagem do longa — e uma das encarnações mais completas da repórter em qualquer mídia.

Comparações são inevitáveis, especialmente quando se trata de um personagem tão enraizado no subgênero de super-heróis. James Gunn constrói seu “Superman” com fortes influências da Era de Prata dos quadrinhos, apostando em megalomanias visuais, ficção científica e weird fiction hardcore, tudo isso com cenas de ação empolgantes e um equilíbrio entre leveza e gravidade narrativa.

Lois Lane (Rachel Brosnahan), Jimmy Olsen (Skyler Gisondo) e Clark Kent (David Corenswet). Reprodução

Um filme mais psicodélico e político

Gunn escala personagens como Sr. Incrível (Edi Gathegi) e o Metamorfo (Anthony Carrigan) para levar o Superman a aventuras estranhas e psicodélicas — as mais ousadas que o personagem já viveu no cinema. Em termos de tom, o diretor busca resgatar os ecos do “Superman” de Christopher Reeve, a mais icônica e insuperável versão do herói nas telas. É um acerto, ainda que também uma admissão: qualquer encarnação do personagem estará fadada a viver à sombra daquele clássico, e por melhor diretor que seja, Gunn não chega perto da condução de Richard Donner.

Quanto ao antagonista, Lex Luthor, é possível dizer que desde Gene Hackman um ator não encaixava tão bem no papel. Nicholas Hoult é uma escolha certeira para interpretar um Lex com ecos de Elon Musk e outros bilionários megalomaníacos que querem ser um Deus. Os dois principais conflitos do filme partem de um ponto comum — a inveja e a psique perturbada de Luthor. Ambos funcionam por boa parte da trama, mas em certo momento o conflito humano, o mais interessante, perde o foco para um embate mais genérico e típico do gênero, o que diminui a potência emocional do longa.

Nicholas Hoult como Lex Luthor. Reprodução.

A química e as pressas que movem “Superman” de James Gunn

Em determinado ponto, o filme abandona seu tom serializado e finalmente engrena. O conflito central é demarcado de forma clara, ainda que simples, e temos o surgimento de um trio de personagens cativantes e malucos — bem ao estilo James Gunn. Em especial, Guy Gardner (Nathan Fillion), o Lanterna Verde fanfarrão, protagoniza os momentos mais engraçados do filme. Aqui, o humor ácido e por vezes infantil do diretor encontra terreno fértil, e a química entre os super-seres funciona com naturalidade. O ritmo melhora, e o longa alcança seu ápice, embalado também pela excelente dinâmica entre Clark Kent e Lois Lane.

Apesar dos acertos, “Superman” sofre com a pressa. A curta duração compromete o desenvolvimento da rotina desses personagens no novo mundo. Há uma subtrama envolvendo os pais biológicos de Clark que surge abruptamente e, embora ganhe força emocional no final, carece de desenvolvimento. O filme também exagera na plasticidade em certos momentos, focando em explosões e lutas em detrimento da humanidade que poderia ser explorada com mais profundidade.

Há ainda um apagamento perceptível de Clark Kent em partes da narrativa. O tema da opinião pública oscilante sobre o Superman é promissor, mas mal explorado. Diálogos expositivos tomam o lugar de uma abordagem mais cinematográfica — e aqui a máxima “mostre, não conte” teria feito diferença. Conveniências de roteiro também atrapalham, minando o impacto de certos acontecimentos.

Por outro lado, o filme é mais político do que muitos esperavam. Temas como pós-verdade e guerra de narrativas são centrais, afetando diretamente o trabalho de Clark como jornalista. O longa ensaia até uma analogia corajosa com conflitos geopolíticos como Israel x Palestina, e embora o papel do governo dos EUA acabe suavizado, a presença de Lex como agente manipulador insere o filme em um debate atual e polêmico — o que eleva seu conteúdo temático.

Reprodução.

Vale a pena assistir?

“Superman” é irregular e algumas decisões criativas equivocadas pesam contra ele. No entanto, a humanidade impressa ao longo das duas horas e as ideias que desafiam o gênero fazem do filme uma experiência válida — especialmente se vista em tela grande, ao lado de amigos, gerando discussões acaloradas. James Gunn ainda está moldando seu universo, e se este filme não é perfeito, ao menos prova que o Superman ainda tem algo a dizer.

Por Tiago Maia.