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Richard Gere em OH CANADÁ Richard Gere em OH CANADÁ

Oh Canadá — A verdade como testamento final

Em Oh Canadá, um grupo de cineastas prepara uma casa isolada para uma gravação. Malcolm (Michael Imperioli), ao lado de sua esposa Rene (Caroline Dhavernas), e da jovem assistente Sloan Ambrose (Penelope Mitchell), pretende registrar um documentário sobre a vida de um reconhecido documentarista no fim de sua trajetória. O personagem em questão é Leo Fife (Richard Gere), um nome consagrado do cinema, agora fragilizado por um câncer terminal. Abatido e sob os cuidados da esposa Emma (Uma Thurman) e de uma enfermeira, Leo demonstra empenho em participar do projeto, mas com um objetivo muito pessoal: confessar as falhas de sua vida pregressa diante da câmera.

O que se inicia como uma homenagem à sua carreira se transforma, aos poucos, em uma espécie de expiação. Antes de abandonar o exército americano e se refugiar no Canadá, Leo acumulou relações amorosas mal resolvidas, filhos não reconhecidos, promessas descumpridas e uma dificuldade crônica em manter laços afetivos duradouros. Ao usar o documentário como forma de confissão, ele não busca redenção pública, mas sim abrir o coração à única pessoa que realmente ficou ao seu lado: Emma.

“Construí uma carreira arrancando a verdade das pessoas, elas me contavam o que não contavam a outros. Agora é minha vez, só consigo dizer a verdade com a câmera ligada, e você (Emma) é minha testemunha. Esta é minha oração final e, acreditando ou não em Deus, ninguém mente quando ora.”

Dirigido por Paul Schrader (First Reformed, O Contador de Cartas), “Oh Canadá” é um filme que aposta menos no escândalo e mais na contemplação. Alternando entre o presente e flashbacks que revelam a juventude turbulenta de Fife, o longa se estrutura quase como um testamento audiovisual. As imagens do passado ganham um tom poético graças à narração introspectiva de Richard Gere, que imprime uma serenidade amarga ao personagem. É como se a câmera não estivesse apenas registrando sua vida, mas participando de um ritual íntimo de encerramento.

A força do filme está na sensibilidade com que retrata a queda das grandes figuras. Fife, aclamado no passado por revelar as verdades alheias, agora precisa confrontar as suas. Essa inversão simbólica funciona não apenas como crítica à idolatria das figuras públicas, mas também como lembrança de que todos, até os mais reverenciados, são imperfeitos.

Com roteiro sensível, atuações comoventes e uma atmosfera melancólica cuidadosamente construída, “Oh Canadá” foge do sentimentalismo fácil e oferece um retrato maduro sobre culpa, legado e o peso das escolhas. Schrader, mais uma vez, nos entrega um personagem que vive à beira da redenção — não por meio da punição ou do heroísmo, mas da vulnerabilidade.

O longa estreia nos cinemas brasileiros em 5 de junho.

Por Hélio Mesquita.