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O Drama (2026) - Crítica do Filme de Kristoffer Borgli com Robert Pattinson e Zendaya O Drama (2026) - Crítica do Filme de Kristoffer Borgli com Robert Pattinson e Zendaya

O Drama (2026) | Crítica do Filme de Kristoffer Borgli

Há alguns anos, o diretor norueguês Kristoffer Borgli chocou o cenário do cinema indie com o longa Doente de Mim Mesma, um filme sobre pessoas histriônicas, narcisistas, indivíduos quebrados que muitos evitam retratar pelo medo de que seus personagens sejam odiados em excesso. Mesmo com um orçamento baixo, Borgli já demonstrava ousadia: um diretor autoral que se distanciava da chamada “montagem invisível”, recurso essencial às narrativas clássicas.

Em 2026, ele lança seu novo projeto, agora em solo estadunidense, com duas estrelas de peso: Zendaya e Robert Pattinson.

Em O Drama, acompanhamos Emma Harwood (Zendaya), uma atendente de livraria de Baton Rouge, e seu noivo Charlie Thompson (Robert Pattinson), um diretor de museu britânico, nos dias que antecedem seu casamento. O que deveria ser a semana mais feliz de suas vidas começa a desmoronar quando uma revelação perturbadora sobre o passado de Emma vem à tona, colocando em xeque toda a relação.

A partir desse ponto de ruptura com o status quo, o filme se propõe a levar suas questões ao limite. Borgli constrói uma primeira parte encantadora e envolvente, mas, após o ponto de virada, parece interessado em destruir e reconstruir um verdadeiro castelo de cartas emocional. Os temas centrais dialogam com sua filmografia anterior: o diretor parece provocar o espectador com perguntas incômodas — “uma pessoa ruim merece perdão?” e “até onde podemos julgar alguém?”. A força das atuações nos arrasta diretamente para esse conflito.

A química entre Pattinson e Zendaya é impressionante. Ambos transitam por extremos emocionais em situações por vezes alucinantes, e a direção potencializa cada nuance, fazendo com que o espectador sinta o peso de cada escolha e de cada silêncio.

A fotografia aposta em uma paleta de cores lavada, com um tratamento que remete a uma estética setentista. A câmera está em constante movimento, refletindo a inquietação emocional dos personagens. Tudo parece uma lembrança — e, para alcançar esse efeito, o diretor se apoia fortemente na montagem e no som.

A montagem transita entre diferentes tempos narrativos: passado, presente e até possíveis futuros. Em alguns momentos, o filme parece habitar memórias ou até acontecimentos que talvez nunca tenham existido. Ainda assim, por mais experimental que seja, tudo permanece compreensível, reforçando a imersão no drama dos personagens, que são ao mesmo tempo caricatos e profundamente humanos.

O desenho de som é essencial para situar o espectador nesse caos. Vozes se sobrepõem, efeitos sonoros rompem a linearidade temporal e as transições sonoras frequentemente extrapolam a própria diegese. O filme não busca esconder seus artifícios — ele os escancara.

A direção ousada e precisa sustenta o interesse do início ao fim e cria uma expectativa crescente pela conclusão. Se há um possível defeito, é justamente essa expectativa elevada, que resulta em um desfecho menos catártico do que se poderia imaginar. Ainda assim, isso não diminui o impacto da obra, que leva seus protagonistas ao limite emocional. E Borgli acerta em cheio ao encerrar tudo com uma cena final belíssima, capaz de arrancar, ao mesmo tempo, um sorriso e uma lágrima.

O Drama (2026) - Crítica do Filme de Kristoffer Borgli com Robert Pattinson e Zendaya

O filme aborda questões sensíveis do estilo de vida americano sem qualquer receio, explorando temas delicados com uma crítica afiada. Talvez seja justamente o olhar estrangeiro do diretor que permita uma abordagem tão incisiva e sem concessões.

O Drama se consolida como um dos retratos mais provocativos sobre amor e relacionamento dos últimos anos. Em um cenário saturado por narrativas previsíveis, o filme surge como um sopro raro de originalidade — uma obra que não pede permissão para incomodar, questionar e, acima de tudo, permanecer na mente do espectador muito depois dos créditos finais.

Por Tiago Maia.