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Milton Bituca Nascimento: o tempo é travesso, a vida travessia Milton Bituca Nascimento: o tempo é travesso, a vida travessia

Milton Bituca Nascimento: o tempo é travesso, a vida travessia

“Milton Bituca Nascimento” é o documentário homônimo do reconhecido músico brasileiro que fez história com sua voz e canto, tornando-se parte da identidade cultural do povo brasileiro. O filme acompanha a turnê de despedida de um Milton já em idade avançada, que percorre países da Europa e Estados Unidos, sendo reconhecido por grandes músicos internacionais e celebrado pelo público.

Com uma montagem preciosa, o filme conta com depoimentos de diferentes músicos e pessoas que tiveram contato com a música de Milton. O interessante é que, apesar de ser identificado como música popular brasileira, é notório como a comunidade do jazz o abraça e o ovaciona, pelo poder de sua voz. O próprio Milton afirma que, ao escutar Miles Davis pela primeira vez, pensou: “Isso não é um trompete, essa é minha voz”.

Durante o documentário, é contada a história de Bituca. Com uma infância conturbada e cheia de mudanças, Milton nasce no Rio de Janeiro como filho único e, aos dois anos de idade, em Minas Gerais, fica órfão de sua mãe. Posteriormente, foi adotado por um casal de brancos, o que gerou muita repercussão. Além do racismo que Milton sofreu, sua mãe adotiva também enfrentou represálias por parte de conhecidos por adotar uma criança negra. Desde cedo, ele se interessou por música e, assim que teve certeza de que seria artista, mudou-se para São Paulo, onde encontrou oportunidades. Sua canção “Travessia” alcançou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção e, a partir daí, iniciou sua carreira de sucesso.

No final da turnê de despedida, o filme culmina com o show no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte, diante de um público numeroso. Milton recebe convidados como Lô Borges e Beto Guedes, parceiros do disco Clube da Esquina que, apesar da resistência da gravadora em lançá-lo, tornou-se um sucesso indiscutível. Alinhando sua musicalidade ao rock e outros gêneros, o álbum foi considerado o nono melhor de todos os tempos pela revista norte-americana “Paste Magazine”.

Além de uma abordagem histórico-documental, “Milton Bituca Nascimento” nos traz uma forte inspiração poética, potencializada pela narração poderosa de Fernanda Montenegro, que tenta traduzir como esse artista, que possui em seu encanto a vastidão de um oceano, diz tanto mesmo em seu silêncio. É incrível a capacidade de mobilizar sentimentos apenas a partir da figura do músico, que evoca, solitário, seu peso e relevância.

O que o documentário nos permite concluir é que Milton Nascimento, aos 80 anos, nunca deixou de ser um menino — não por possuir uma ingenuidade ou inocência, mas sim porque nunca deixou de ter um olhar único e criativo sobre o que é o nosso Brasil profundo. Com sua criatividade exacerbada e muita potência musical, ele deixa um legado e revela em “Milton Bituca Nascimento” que, mesmo após a turnê de despedida, não quer deixar de cantar, pois isso faz parte de quem ele é.

Para quem já é fã da obra ou, por algum motivo, ainda não o conhece, essa é uma indicação indispensável. É impossível terminar “Milton Bituca Nascimento” sem uma admiração ainda maior pela figura de Milton Nascimento e sem se emocionar com a forma como sua história foi contada. O documentário é, em resumo, sensacional. Nos convida a fazer uma travessia no tempo com um homem que é um aglutinador nato e que ecoa seu sucesso através de décadas. Se “o tempo é travesso, a vida travessia”, como narrou Fernanda Montenegro no início do filme, Milton soube brincar com o tempo e atravessar a vida com maestria.

“Milton Bituca Nascimento” chega aos cinemas em 20 de março.

Por Hélio Mesquita.