Lar é o primeiro longa-metragem de autoria de Leandro Wenceslau, que aborda a situação de famílias adotivas não convencionais e a relação com as crianças e adolescentes adotados. Com sensibilidade e composto a partir de uma situação autobiográfica do autor (que perdeu a mãe muito cedo e foi abandonado pelo pai, sendo criado pelos avós), o filme possui um apelo emocional intenso em que histórias se cruzam e se complementam.
Uma mãe solo e seus desafios
Uma das histórias é a de uma mãe solo, que possui um salão de beleza e adotou uma garota adolescente. Apesar da boa relação entre as duas, a garota chegou a fugir e retornar ao abrigo, gerando uma tensão. Após se reconciliarem, a jovem está no período do ensino médio, onde está tomando decisões para encarar sua vida profissional adulta. A história demonstra o desafio de uma mãe criar um filho com pouca rede de apoio e sendo a única responsável presente.
Um casal homoafetivo e a adoção
Outra história é a do próprio autor. Casado com seu parceiro e formando um casal homossexual, ele explora como o estigma e a discriminação social afetaram sua vida. O casal adotou dois filhos – primeiro um garoto e depois um jovem adolescente. A relação entre os dois irmãos é próxima, e o jovem também fala da responsabilidade que assumiu quando se tornou uma referência para seu irmão menor, pois estava acostumado, em sua família anterior, a ser o irmão mais novo.
Avós cuidando do neto
Por último, conhecemos um garoto apaixonado por futebol, que está sob os cuidados dos avós. Ele é filho de uma mulher trans que trabalha como MC e de uma mulher cis. A mãe MC tem uma rotina de trabalho que exige que ela viaje bastante e não se mantenha na cidade onde ele está radicado (Belo Horizonte). O garoto está com o colesterol alto, e as mães se preocupam bastante com sua saúde.

LAR: a narrativa visual e a estrutura do documentário
Com relatos aprofundados e uma montagem que entrelaça as histórias, o filme traz tanto a perspectiva dos pais responsáveis pelos lares adotivos quanto das crianças e adolescentes adotados que têm uma vida pregressa em abrigos para crianças abandonadas. De forma complementar, são exploradas tanto as rotinas e anseios dos adotados quanto as formas de manutenção de laços das famílias que adotam, principalmente no contexto contemporâneo em que as famílias não possuem uma estrutura mononuclear tradicional.
O filme possui uma inserção de cenas simbólicas que contribuem para reforçar seu discurso narrativo. Estas cenas são gravações em brinquedos de parque de diversão, onde a vida corre de forma contínua e cíclica (roda giratória e carrossel) e onde há choques e conexões (carros de bate-bate). Outro ponto que favorece a forma como se aborda o tema são as imagens de câmera estáticas, com pouco movimento, trazendo a contemplação de detalhes dentro da vivência do que é documentado.
O documentário evidencia que, para formar uma família, seja ela da forma que for, é preciso prezar pelo carinho e pelo cuidado. Não há barreiras para o amor e o afeto que sejam constituídas pelas visões discriminatórias e anacrônicas de modelos familiares que se constituem apenas por pai, mãe e filho(s), sendo que, em muitas vezes, mesmo com a ilusão de um modelo padrão, isso pode constituir uma família disfuncional.
O que gera um lar saudável vai além de estruturas convencionais. É algo simples, mas que pode ser difícil de compreender: é o entendimento e o respeito mútuo que nascem da relação diária e cotidiana, do compromisso com o cuidado e do afeto que une pessoas que escolhem construir uma vida juntas, independentemente de laços sanguíneos ou configurações tradicionais.
Por Hélio Mesquita.
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