O clássico “O Encouraçado Potemkin”, de Serguei Eisenstein, hoje uma referência incontestável do cinema mundial, foi encomendado pelo governo soviético para exaltar a Revolução de 1917. Já o quadrinho belga “Tintim”, de Hergé, teve sua origem em um jornal católico cujo editor era simpatizante do fascismo, o que se reflete em algumas de suas histórias, como Tintim no Congo, que reforça a ideologia colonialista europeia. Essa relação entre política e arte é o foco do documentário Guerra Fria: O Poder da Animação, que busca analisar, sob perspectivas política e estética, as produções de quadrinhos e animação durante a divisão do mundo entre os blocos capitalista e socialista.
O filme aborda desde os super-heróis americanos, que, após a Segunda Guerra Mundial, deixaram de combater nazistas para enfrentar soviéticos, até a influência cultural de personagens como Mickey Mouse na Europa e a perseguição aos comunistas durante o macartismo. Paralelamente, também apresenta as produções soviéticas que exaltavam expressamente sua ideologia, os quadrinhos italianos e franceses simpáticos ao comunismo e o nacionalismo ocidental frente à “invasão americana” na cultura europeia.
Apesar dos embates ideológicos, o documentário destaca como artistas de ambos os lados admiravam e estudavam as obras de seus “rivais”. Animadores do Leste Europeu, por exemplo, analisavam frame a frame as produções da Disney para compreender a fluidez do movimento. Por outro lado, as animações soviéticas, mesmo quando evitavam conteúdos explicitamente políticos, frequentemente retratavam elementos da cultura ocidental de maneira irônica.
Um dos pontos mais interessantes de “Guerra Fria: O Poder da Animação” é a ênfase na escola de animação da Tchecoslováquia, reconhecida por sua experimentação e diversidade de técnicas. Seus artistas criavam histórias sobre os mais variados temas, nem sempre atrelados à política, o que a tornava um caso singular dentro do contexto do bloco socialista. No entanto, achei engraçado a forma como o narrador menciona essa produção – descrevendo-a como um feito que ocorria “sob o duro jugo do regime socialista” – revelando um viés característico da narrativa ocidental e como se fosse uma exceção no meio de um inferno. Curiosamente, essa mesma severidade não é aplicada ao retrato do macartismo, que, apesar de ter sido um período de perseguição política, é tratado de maneira bem menos incisiva.
Guerra Fria: O Poder da Animação e sua narrativa eurocentrista
Aqui e acolá, o documentário critica a busca incessante por lucro das empresas de entretenimento dos EUA e a apropriação de animações e quadrinhos para o público infantil como ferramentas ideológicas. No entanto, ao chegar à queda do Muro de Berlim, assume um tom de celebração que ignora nuances do período, quase um anticomunismo, sugerindo que a derrocada da União Soviética coincidiu com um período de “alta prosperidade econômica do capitalismo”, sem qualquer problematização sobre os desdobramentos desse modelo – o que soa especialmente desconfortável em meio às crises climáticas e sociais dos últimos anos, resultantes do avanço do neoliberalismo.
Embora “Guerra Fria: O Poder da Animação” selecione obras e fatos interessantes e não tão conhecidos, a minha impressão é a de que o documentário acaba se tornando uma enumeração de quadrinhos, animações e seus autores, apresentando um pouco do contexto de cada, mas sem uma sólida costura entre eles. Com isso, na conclusão levanta um questionamento que parece aleatório, como se de repente o tema tivesse mudado e como se o maior problema do monopólio econômico e cultural da Disney fosse a falta de referência de animações europeias. Ao invés de voltar para a política e ideologia das obras de quadrinhos e de animação, encerra com uma fala que denota um nacionalismo eurocentrista: “Vamos apenas sonhar (…) que as histórias europeias contadas por europeus podem alimentar e cativar profundamente a imaginação das crianças”.
Essa abordagem reflete uma visão tipicamente ocidental e noventista, moldada pela crença no “fim da história”, conceito popularizado por Francis Fukuyama. Enquanto a narrativa se propõe a analisar as relações entre ideologia e produção cultural, sua conclusão parece deslocada, tratando o monopólio econômico e cultural da Disney não como um problema político, mas como uma perda para a identidade europeia. O desfecho, com a afirmação de que “as histórias europeias contadas por europeus podem alimentar e cativar profundamente a imaginação das crianças”, sugere um nacionalismo eurocentrista que, para um público não europeu, soa estranho e excludente.
“Guerra Fria: O Poder da Animação” pode até ser uma fonte de estudo para pesquisadores de quadrinhos e de animação, mas provavelmente nós, que não somos europeus, não somos também seu público-alvo. O documentário pode ser visto no CurtaOn, disponível no Prime Video Channels, da Amazon, na Claro tv+ e no site oficial da plataforma (CurtaOn.com.br).
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