Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2026, o novo projeto do iraniano Jafar Panahi chega aos cinemas brasileiros como um dos grandes filmes do ano. E não é à toa, pois “Foi Apenas Um Acidente” é uma obra múltipla: pois é um thriller de vingança, uma tragicomédia (com ótimas tiradas), é um road movie e, acima de tudo, também é um grito de resistência contra a opressão. Mais do que um filme, Panahi coloca um testemunho, resultado direto das experiências do diretor nos corredores da temida Prisão de Evin, no Teerã.
A trama começa de forma enganosamente simples. Durante uma viagem noturna com a família, Rashid (Ebrahim Azizi) atropela um cachorro, causando um pequeno defeito no carro. Ao buscar ajuda em uma oficina mecânica, ele é ouvido por Vahid (Vahid Mobasseri), que reconhece o som inconfundível de sua prótese na perna. Para Vahid, aquele andar arrastado pertence a “Perna de Pau”, o infame torturador que o submeteu a sessões de violência durante anos na prisão, sempre com os olhos vendados. Cego pela certeza do ódio, Vahid sequestra Rashid, leva-o ao deserto e começa a cavar uma cova.
O dilema em “Foi Apenas Um Acidente”
É neste momento que o filme abandona qualquer previsibilidade. Enquanto a terra cai sobre seu rosto, Rashid implora: ele não é o algoz, é apenas um pai de família confuso. A dúvida não parece, ela corrói Vahid. Ele interrompe o enterro e, com o suposto criminoso amarrado em uma caixa de ferramentas, parte em uma jornada desesperada para reunir outros ex-prisioneiros que possam identificar o capturado.
O que se segue é uma das construções narrativas mais brilhantes e absurdamente engraçadas. A van de Vahid se transforma em um veículo lotado de fantasmas do passado: Shiva (Mariam Afshari), uma fotógrafa; Golrokh (Hadis Pakbaten), uma noiva vestida de branco que também carrega as marcas da tortura; seu noivo Ali; e o ex-namorado tempestuoso de Shiva. Juntos, eles vagam em círculos pelo deserto, discutindo, relembrando horrores e tentando decidir o destino de um homem que pode ou não ser o monstro.
A metáfora do círculo e o clímax
Panahi transforma a paisagem árida em um palco sobre existência. Os personagens estão presos em uma espera infinita, sem saber se agem ou ficam quietos. A fotografia entra com a feiura da dúvida moral. Em um dos momentos, uma personagem tira o hijab, que é um ato de rebeldia silenciosa, pois no Irã, ecoa os protestos do movimento feminista “Mulher, Vida, Liberdade” dando ao filme uma camada documental à “Foi Apenas Um Acidente”.
“Foi Apenas Um Acidente” também não economiza na sátira. A corrupção cotidiana é escancarada em uma piada recorrente: para cada obstáculo; um guarda, uma enfermeira, um porteiro, Vahid precisa subornar alguém. É a burocracia do medo transformada em rotina.
A tensão, que Panahi equilibra entre o drama judicial e a farsa, explode no final com força. Sem revelar o destino de Rashid, a câmera fixa-se nos rostos dos personagens enquanto suas histórias de dor chega pra quem tá vendo. O diretor não nos dá o conforto da catarse fácil. Em vez disso, entrega um ato final que parece queimar, uma acusação incendiária a todos os sistemas e, ao mesmo tempo, um alerta sobre o perigo de nos tornarmos aquilo que odiamos.

O significado do título
O título, que ecoa a fala da esposa de Rashid no início de “Foi Apenas Um Acidente”, ganha camadas trágicas ao longo da história. Nada neste universo de Panahi é acidental. O atropelamento do cachorro, a quebra do carro, o encontro na oficina, são peças de uma engrenagem do destino que força o espectador a questionar a própria natureza da justiça. Se a vingança é um prato que se come frio, Panahi nos serve uma refeição congelada, mas nos obriga a pensar em cada garfada.
Vale a Pena?
Este é o filme de um homem livre. Após anos de prisão domiciliar, perseguições e filmagens clandestinas, Jafar Panahi finalmente pode aceitar sua Palma de Ouro em pessoa. A liberdade, no entanto, não o tornou complacente. Pelo contrário, ela parece ter afiado sua mente. O resultado é chega na tela como um retrato de seu passado.
“Foi Apenas Um Acidente” não oferece respostas fáceis, mas que permanece na mente do espectador por dias. O filme pode, e deve ser, um lembrete de que, sob regimes autoritários, a linha entre vítima e carrasco pode ser tão tênue quanto o som de uma perna mecânica arrastando no chão. Esse filme é show demais. Ele tá indicado ao Oscar e chega em março pela MUBI.
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