“Antes de embarcar em uma jornada de vingança, cave duas covas”, atribuída ao filósofo chinês Confúcio é o que dá atmosfera da nova série espanhola da Netflix, Duas Covas (Dos Tumbas, 2025). Estrelada por Kiti Mánver (atriz de filmes de Pedro Almodóvar como Abraços Partidos) e Álvaro Morte (o Professor da série La Casa de Papel), temos em tela uma curta minissérie permeada de ressentimento, moralismo e violência.
Nela, Isabel inicia uma investigação paralela à da polícia em busca de sua neta, desaparecida há dois anos, embarcando numa jornada por vingança. Já não há mais esperanças em relação a um avanço no trabalho da polícia, que por sua vez não conseguiu identificar culpados ou mesmo o paradeiro de uma das vítimas.
Criada por Agustín Martínez e dirigida por Kike Maíllo, esta é uma série composta por apenas três episódios, então você não levará mais tempo do que demoraria para assistir a um filme para completar a saga de Isabel. A personagem de Mánver chama atenção por ser, como sempre, inusitado uma senhora de idade avançada cometendo as barbaridades que ela comete, a começar pela primeira pista que consegue a partir de um aluno do qual é professora de piano. Depois disso, sua ficha corrida passa a crescer numa velocidade nababesca, deixando bem claro que ela está trilhando um caminho sem volta.
Por conter pouco tempo no corte final, alguns acontecimentos acabam soando apressados e isso pode acabar prejudicando a experiência do espectador, ainda mais se levarmos em conta os diálogos didáticos e expositivos – uma constante quando falamos de séries espanholas. No entanto, os plot twists acabam agradando e permitindo que Duas Covas não caia num marasmo previsível.
Outro ponto que chama atenção no roteiro é a visão a respeito da independência vivida pela protagonista Isabel. Vemos que desde o início ela possui uma boa relação com a neta desaparecida, mas que se trata de uma pessoa mais reclusa em sua rotina. Porém, seu filho (e pai de suas netas) a acusa em dado momento de ter sido a vida toda ausente e só depois ter “decidido se tornar uma avó”.
Se isso for assimilado apenas como uma visão dos personagens de dentro da história (no caso, o filho), tudo bem, mas conforme identificamos o destino final de Isabel, abre a possibilidade para que um certo moralismo seja imputado ao discurso final. Enxergar as pessoas mais velhas na família como incapazes ou indignas de ter a sua própria autonomia é algo comum no mundo real, mas isso de longe parece algo correto a se fazer.

Esse indício de moralismo soma-se às justificativas póstumas para os brutais assassinatos ocorridos na série. É curioso notar que, após um personagem passar por uma chocante cena, logo em seguida passa-se o pano mostrando que aquele coitadinho na verdade cometeu um bárbaro crime de cunho sexual, dando uma carta branca tardia ao ato de quem cometeu o crime.
Enquanto a protagonista de Kiti Mánver se destaca, o mesmo não é possível dizer de Álvaro Morte. O astro de La Casa de Papel está num papel protocolar, muito mais a serviço da premissa e roteiro da série do que qualquer outra coisa que oferecesse uma necessária subjetividade ou leveza ao seu maculado personagem.
Crítica: Duas Covas é bom?
Sendo das poucas estreias da Netflix na semana, vale sim uma conferida em Duas Covas, seja para conhecer a grande atriz que é Kiti Mánver ou mesmo para conferir uma tensa trama com interessantes reviravoltas. A citação a Confúcio dá um toquezinho a mais de embasamento e credibilidade ao argumento da produção, mas nada que a torne genuinamente memorável.
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