Mesmo que não seja o esporte mais popular do Brasil, ou do resto do mundo, com certeza o futebol americano é o mais popular entre os estadunidenses. Operando jogos e eventos disputadíssimos, a atividade movimenta milhões de dólares no país potência econômica. Mas, ao contrário do que se acredita no senso comum, o futebol americano não se trata somente de grandalhões brutamontes se empurrando: o jogo possui regras e estratégias complexas, além de posições definidas para cada função. A posição mais crucial — e bem paga — é o quarterback, responsável por fazer passes e movimentações importantes.
Em GOAT (no original HIM), filme dirigido por Justin Tipping e produzido por Jordan Peele (diretor de “Corra!”, “Nós!” e “Não! Não Olhe!”), o jovem Cam (Austin Pulliam) assiste a uma partida decisiva de futebol, presenciando seu ídolo, o quarterback Isaiah (Marlon Wayans), forçar uma lesão corporal para garantir o touchdown da vitória. Enquanto isso acontece, seu pai afirma que isso é o que um homem de verdade deveria fazer: se sacrificar pelos objetivos.

O mentor e o mistério
Alguns anos se passaram e Isaiah, de maneira gloriosa, havia se recuperado e garantido sete troféus de GOAT (Greatest of All Time, melhor de todos os tempos). O adulto Cam (Tyriq Withers) está se destacando na mesma posição de seu ídolo e sendo cotado para suceder seu antecessor. Porém, subitamente, enquanto está sozinho no campo à noite, ele recebe uma pancada no crânio de maneira nebulosa e absurda, iniciando o tom de horror da produção.
Inseguro com sua lesão, Cam está reticente quanto a continuar jogando futebol profissionalmente. Providencialmente, seu agente consegue uma proposta com o time de Isaiah e acerta a obrigação de Cam passar um tempo treinando com o ídolo, tendo-o como mentor. Nesse momento do desenvolvimento do filme, o que ainda não havia ficado claro se torna explícito: o ponto central não é o sacrifício, no sentido habitual, e sim outro motivo misterioso e desconhecido.

GOAT: além do futebol
Um conselho a quem pretende assistir ao filme: não pense que é uma jornada de superação heroica em momentos de ação esportiva. O filme não é sobre isso e talvez, de fato, nem seja tanto sobre o futebol, mas sim sobre uma atmosfera de horror em que metáforas discursivas e visuais vão sendo apresentadas e intensificadas gradualmente. Gladiadores, heranças genéticas, Jesus Cristo e maçonaria são alguns desses exemplos — e são apenas poucos deles.
Com esse rocambole de conteúdos ocultistas e de terror psicológico, o filme nos apresenta uma série de contextos, mas não nos diz exatamente o que fazer com eles. É como se as coisas estivessem soltas em um delírio psicótico e, narrativamente, não possuíssem coerência entre si. Claro, não é de todo falho: tem uma direção de arte atenciosa e momentos que trazem uma contemplação positiva do filme. Mas, francamente, com o roteiro que aparentava ser bom, produziram algo incompleto, ainda que com bastante potencial.
A tônica de mistério é cheia de possibilidades e, de fato, poderia ter ocupado mais espaço na expectativa do público. O filme é limitado em trazer muito material e, se não possuísse uma montagem precipitada, poderia produzir mais suspense na trama, apresentando mais coisas em um ritmo cadenciado e gerando uma atmosfera mais imersiva de horror e tensão. É compreensível a intenção por trás do filme de manipular psicologicamente a audiência, e até poderia ser alcançada, mas faltou uma melhor direção criativa por parte de Justin Tipping.
No mais, o “rocambole” pode não ter sido bem produzido, mas ainda é agradável para consumo. “GOAT” estreia nesta quinta (02) nos cinemas.
Por Hélio Mesquita.
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