Em todos os filmes biográficos que já assisti, sempre percebo um certo dilema: qual recorte da vida da pessoa seria a melhor opção para se trabalhar no cinema? Nem todos os diretores sabem fazer essa escolha, e partes importantes da trajetória de algumas personalidades acabam ficando pelo caminho. Ao ver que Benny Safdie optou por retratar apenas três anos da vida de Mark Kerr, um dos lutadores mais importantes para a consolidação do Ultimate Fighting Championship, o famoso UFC, fiquei mais tranquilo para ver Coração de Lutador – The Smashing Machine.
Entre o UFC e o PRIDE: o auge dos anos 90
A trama se passa entre 1997 e 2000, período decisivo na carreira de Kerr. Benny Safdie (que codirigiu os ótimos “Joias Brutas” e “Bom Comportamento” ao lado do irmão Josh) acerta ao escolher um recorte que equilibra vida pessoal e profissional. O filme acompanha a ascensão do lutador, vivido de forma intensa por Dwayne Johnson (o The Rock), justamente no momento em que o UFC ganhava projeção mundial, especialmente no Japão e no Brasil.
A ambientação no final dos anos 90 é um dos pontos altos do filme: roupas, cortes de cabelo, músicas, carros e até os pequenos detalhes, como os icônicos shorts da marca “Bad Boy”, ajudam a recriar a época (que pode soar nostálgica para alguns). Também é interessante perceber como o Japão foi fundamental nessa fase embrionária do MMA, com a consolidação do PRIDE Fighting Championships, torneio que rivalizava diretamente com o UFC.

Coração de Lutador – The Smashing Machine traz Dwayne Johnson em sua atuação mais dedicada?
Não costumo me incomodar quando Dwayne Johnson aciona seu “modo automático” em papéis mais comerciais, que, inclusive, gosto de assistir. Mas aqui é preciso destacar como ele pareceu realmente comprometido com o personagem. Não apenas pela pequena prótese facial ou pela preparação física (ele continua gigante), mas pela postura mais contida e vulnerável. Desde as primeiras cenas, fica claro que tanto o ator quanto Safdie buscaram dar camadas a Kerr: por fora, uma rocha; por dentro, um homem maleável, cheio de conflitos (e precisando de terapia).
Emily Blunt também merece destaque como Dawn, namorada e futura esposa de Kerr. A relação conturbada dos dois é um dos pontos centrais da narrativa — e funciona bem, já que “Coração de Lutador – The Smashing Machine” não aposta apenas nas lutas como atrativo. Outro nome importante é Ryan Bader, que interpreta Mark Coleman. Conhecido por sua carreira como lutador do UFC, Bader me surpreendeu pela naturalidade em tela, construindo bem a figura de Coleman, amigo e rival de Kerr na vida real. A presença de Bader como Coleman é um reforço a autenticidade do filme, ajudando a contextualizar a trajetória do protagonista.
E isso é interessante de observar, pois alguns ex-lutadores têm se consolidado em Hollywood. John Cena vem se destacando em “Pacificador”, Dave Bautista já mostrou versatilidade em papéis como “Blade Runner 2049” e “Guardiões da Galáxia”, e agora Dwayne Johnson parece entrar em uma nova fase da carreira. Depois de anos em grandes blockbusters, ele quer se arriscar em projetos mais intimistas, que exigem maior entrega dramática. Espero que seja um caminho sem volta, abrindo espaço para atuações cada vez mais dramáticas.
“Coração de Lutador – The Smashing Machine” estreia nos cinemas em 3 de outubro e chega não apenas um retrato do esporte, mas também sobre a fragilidade humana por trás de um ícone das artes marciais.
![[COSMO] Topo Home e Posts](https://cosmoup.com.br/wp-content/uploads/2026/02/lol5_padrao_728x90px_exib.jpg.jpeg)