Um pré-requisito para qualquer live-action de animação funcionar é ser, no mínimo, visualmente impactante. E isso, a nova versão de Como Treinar o Seu Dragão (2025) entrega com competência. Mas a pergunta que permanece é: vai além disso?
A sinopse segue fiel ao original: Soluço, um jovem viking, desafia as tradições de sua aldeia ao fazer amizade com um dragão ferido chamado Banguela. Juntos, eles provam que humanos e dragões podem conviver em harmonia. A estrutura narrativa também é mantida, mas mesmo com um roteiro similar, filmes feitos em épocas e contextos diferentes trazem nuances e particularidades próprias. E é aí que moram as virtudes e as limitações desta nova versão.
A fotografia é comandada pelo consagrado Bill Pope (“Matrix”, “Homem-Aranha 2”) e brilha desde a primeira cena, capturando com magnitude a beleza das paisagens e a imponência dos dragões. A trilha sonora e o design de som são igualmente competentes, entregando sustos pontuais e contribuindo para a imersão do espectador. Tecnicamente, o filme é um sucesso. Mas quando se trata de originalidade, a conversa muda.

Um dos principais dilemas é o design de Banguela. Apesar do CGI impecável, o visual e comportamento extremamente caricatos do dragão contrastam com o tom mais realista do filme. Essa falta de harmonia entre o mundo fotorrealista e os traços herdados da animação original gera estranhamento. Atuações e figurinos também oscilam entre o cartunesco e o sério, deixando a obra com uma identidade meio indefinida.
A direção de Dean DeBlois, que também dirigiu os filmes animados, carrega o peso da fidelidade. Em alguns momentos, seu cuidado beira o preciosismo. A pergunta inevitável surge: se é para fazer tudo igual, por que refazer? A resposta é complexa, pois mesmo sendo quase uma recriação quadro a quadro, o live-action de “Como Treinar o Seu Dragão” tem identidade própria por estar em outro formato e contexto. Ainda assim, não escapa da sensação de ser apenas uma cópia com salto tecnológico.
A amizade com Banguela ainda é o coração em Como Treinar o Seu Dragão
As relações entre Soluço e seus colegas vikings jovens carecem de desenvolvimento. A construção dessas amizades parece forçada e robótica, o que reduz a empatia do público. A relação com Astrid, por exemplo, toma rumos mal fundamentados, mostrando que nem tudo que funciona em animação funciona da mesma forma no live-action.
Por outro lado, o relacionamento entre Soluço e seu pai Stoico é um dos pontos altos. Gerard Butler (que interpretou o pai de Soluço na animação) e Mason Thames (“Telefone Preto”) entregam uma dinâmica comovente, com um pai durão e um filho carente de afeto. Essa relação dá ao filme a humanidade que ele tanto precisava.

A construção da amizade entre Soluço e Banguela continua sendo o centro emocional da história. Apesar da dissonância visual do dragão, o carisma do personagem é tamanho que isso se torna um detalhe. A mensagem de que um animal pode nos ensinar sobre empatia e convivência permanece forte.
O humor também funciona, seja com piadas verbais ou físicas, especialmente nas interações entre Soluço e Banguela. O personagem Bocão, vivido por Nick Frost (“Todo Mundo Quase Morto”), é outro destaque cômico bem-vindo.
“Como Treinar o Seu Dragão” (2025) é um blockbuster feito sob medida para agradar um público já conquistado. Por vezes, flerta com o cinismo de outros live-actions de animação, mas se salva pelo carinho com que é conduzido, pelas boas atuações e por um valor de produção acima da média. Mesmo que sua existência seja discutível, é inegável que a obra emociona e resgata parte da magia do original. Para um remake, isso já é uma vitória considerável.
Por Tiago Maia.
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